5.5.09

Aula de ruptura

Pesquisas atuais mostram que, em aproximadamente 10 anos, a maioria das aulas será online e os alunos trocarão os livros didáticos por conteúdos digitais, como está acontecendo com jornais e revistas. Softwares estão sendo criados para auxiliar no ensino de conteúdos formais, como algebra. Uma pesquisa da NYU conclui que os alunos que aprenderam com o software, ao invés de com a aula presencial, obtem resultados 20% superiores. Escolas inovadoras estão utilizando celulares para enviar notícias, resumos de aulas e desafios surpresa, motivando a participação dos alunos nas aulas e na vida escolar.

Há algum tempo, os sistemas educacionais no mundo convergem para um modelo parecido e apresentam problemas semelhantes: a difícil penetração de novas tecnologias, o conservadorismo de professores e gestores, a desmotivação dos alunos, a politização excessiva de sindicatos, universidades e professores, a falta de infra-estrutura adequada, etc. Em qualquer país do mundo, há a escola como um prédio quadrado, dividido em salas de aula, que são centralizadas nos professores. O livro Disrupting Class, de Clayton M. Christensen, argumenta que o processo de busca por soluções para a educação não é eficiente se começamos olhando para os problemas atuais.

O autor apresenta ideias retiradas de pesquisas onde a inovação funcionou nos setores industriais e empresariais e defende a "inovação de ruptura", uma maneira completamente nova de oferecer soluções, sem a competição direta com grandes concorrentes. Por exemplo: o mercado de computadores pessoais cresceu porque as vendas vieram de pessoas que ainda não consumiam esse produto, ao invés de pessoas que já consumiam um produto semelhante. O livro apresenta vários paralelos entre exemplos da indústria e como ele poderia ser aplicado na educação.

Christensen acredita que a maior necessidade na educação é a personalização do processo, a criação de um serviço que seja realmente centralizado no e personalizado para o aluno, de acordo com o seu estilo de aprendizagem, as suas inteligências, os seus interesses e circunstâncias. O livro não apresenta uma resposta muito clara de como exatamente solucionar o problema, mas dá uma série de dicas para que algum progresso seja possível. Uma das dicas é que a apresentação de informações pode ser customizada por computadores e softwares que avaliem constantemente a forma como o aluno aprende e apresente informações e exercícios de acordo com o resultado dessas avaliações. O ensino baseado em computadores é muito mais customizável aos diferentes estilos e ritmos dos alunos. Se hoje os alunos têm dificuldade de aprender algum tipo de conteúdo, habilidade ou competência, não é porque não são inteligentes, mas porque o sistema monolítico de apresentação de informações não é consonante com a forma como os seus cérebros funcionam.

Outra discussão apresentada no livro é: por que a utilização das TICs na educação ainda não apresenta resultados concretos mesmo depois de um enorme investimento? Porque as TICs são introduzidas em um sistema antigo e conservador, onde o professor centraliza as informações e a forma como as aulas acontecem, o que inibe qualquer tipo de inovação real. Uma possibilidade interessante é que um software futuro consiga desenvolver habilidades e competências relacionadas ao auto-didatismo, não competindo com as orientações do professor, o que significaria que o professor, o livro, o software, a internet, entre outros, seriam ferramentas à disposição dos alunos para que eles aprendessem o que precisam da forma e no ritmo que gostam/podem aprender.

A figura acima ilustra o que acontece hoje: a padronização ainda dita a forma como as matérias são ensinadas e o professor controla todo o processo, utilizando uma abordagem para ensinar um currículo genérico para todos na sala ao mesmo tempo.

A figura abaixo ilustra a sala de aula do futuro, centrada no aluno. Esse modelo utiliza o professor como facilitador, que resolve os problemas e oferece apoio. O foco desse professor "flutuante" é servir aos alunos de forma individual, enquanto eles aprendem em seus próprios ritmos. Chegando lá: Enquanto os acadêmicos discutem classificações específicas, a próxima geração da educação precisa acomodar o vasto espectro de tipos de aprendizagem. Software gerado pelo usuário: Enquanto os alunos utilizam ferramentas de cursos online, eles podem customizá-los para outros alunos. Eles podem até dar feedback e incluir um rating (1 a 5 estrelas) para seus colegas.

Numa sala de aula do futuro, os alunos estão aprendendo gramática chinesa. Os alunos usam headphones que cancelam o barulho e trabalham com seus laptops. Um aluno está dirigindo a construção de uma parede, com tijolos em sua tela. Cada tijolo representa uma palavra e tem uma cor que indica a possível posição da palavra na frase. Quando os tijolos são colocados na ordem correta, a fonética da frase aparece e o aluno escuta a pronúncia. O aluno então trabalha a pronúncia da frase e a parede sacode enquanto a pronúncia não está perfeita. Outro aluno na mesma sala está aprendendo a mesma coisa, mas com um programa diferente, de jogo de memória. Outros aprendem o mesmo conteúdo, mas com música, ou com outras formas que são customizadas para os seus estilos de aprendizagem.

Essa visão não é nova, várias pessoas já a idealizaram, de formas diversas: alunos contribuem em processos de aprendizagem interativa com computadores, celulares e outros aparelhos; professores caminham pela sala como facilitadores e orientadores pessoais; os alunos são motivados e interessados. Apesar disso, a sala de aula de hoje não é muito diferente da sala de aula de 30 anos atrás, com exceção de algumas mudanças como lousas digitais e computadores no final das salas. Simplesmente investir em tecnologia de ponta não trará resultandos. Muitos softwares já existem, mas eles não foram muito utilizados nas aulas e, quando usados, não transformaram a essência do processo de aprendizagem. O instinto natural de qualquer organização é frear inovações através da tentativa de se adaptar o novo ao que já existe, com o intuito de sustentar modelos anteriores. Isso é perfeitamente previsível, perfeitamente lógico e perfeitamente errado.

A chave para a transformação da sala de aula com tecnologia é como ela será implementada. Precisamos começar a inovação através de uma ruptura, não para competir com paradigmas existentes e servir clientes atuais, para para conquistar aqueles que não estão sendo servidos, chamandos de não-consumidores. Dessa maneira, tudo o que uma nova abordagem tem de fazer é ser melhor do que a alternativa, que não existe. Em todo mercado, há duas trajetórias: a velocidade em que a tecnologia melhora e a velocidade em que o consumidr pode utilizar a melhoria. As necessidades dos consumidores tende a ser estável, enquanto que a tecnologia melhora muito mais rapidamente. Como resultado, produtos e serviços que inicialmente não são bons o suficiente para um consumidor típico geralmente melhoram e agregam mais ferramentas e funções que o consumidor pode usar.

Inovações sustentáveis são aquelas que sustentam a trajetória de liderança de uma empresa em uma indústria. Algumas representam grandes mudanças, enquanto outras são rotineiras. Aviões ou computadores mais rápidos, televisores com imagens mais nítidas são inovações sustentáveis. Raramente encontramos inovações de ruptura, que não sustentam a liderança de uma empresa no mercado original, mas que rompem a trajetória, oferecendo um produto ou serviço que na verdade não é tão bom como aquele que a empresa já tem. Já que ele não é tão bom, os consumidores não podem usá-lo. Ao invés disso, a inovação de ruptura beneficia as pessoas que, por uma razão ou outra, não têm condições de consumir o produto original. Essas pessoas são os não-consumidores. Inovações de ruptura são geralmente mais simples e baratas do que produtos existentes. Isso possibilita a sua penetração em novos mercados. Pouco a pouco, a previsibilidade dos rompimentos melhora e as inovações de ruptura se tornam boas o suficiente para lidar com problemas mais complexos e substituem a velha maneira de se fazer as coisas.

Para implementar aprendizagem baseada em computadores, de uma forma que transforme a aula em uma que seja centrada no aluno, devemos primeiro entender o rompimento. Colocar computadores no final das salar ou em laboratórios como ferramenta para o modelo de aula atual ou numa matéria não vai funcionar. Ao invés disso, devemos encontrar áreas de não-consumo para oferecer aprendizagem baseada em computadores onde ela não seja impelida por processos educacionais já existentes. Quando estiverem funcionando nessas áreas e se enraizarem, vão começar a melhorar e transformar a forma como os alunos aprendem.

O que esse modelo significa para educação? Para que a aprendizagem baseada em computadores possa trazer uma transformação de ruptura, ela deve ser implementada onde a alternativa é nenhuma educação. Há muitas áreas possíveis de não-consumo onde esse método já está acontecendo. Por exemplo, aulas online já estão sendo oferecidas para cursos avançados que muitas escolas não podem oferecer, ou escolas pequenas, rurais ou urbanas que não podem oferecer uma diversidade de cursos, em aulas de recuperação para alunos que repetiram de ano, com alunos que estudam em casa e aqueles que não podem frequentar a escola por causa de sua rotina de trabalho ou para aqueles que simplesmente precisam de ajuda.

Apesar da aprendizagem baseada em computadores estar na sua infância, aulas que seguem esse modelo têm vantagens tecnológicas e econômicas sobre o modelo de escola tradicional e estão crescendo e melhorando rapidamente. Além de facilitar a acessibilidade para alunos que não podem fazer os cursos, esse modelo também facilita o ganho de qualidade. Enquanto o modelo cresce, os custos caem. Nos Estados Unidos, já custa menos, em média, educar um aluno online do que educá-lo através do modelo monolítico. Além disso, com o passar do tempo, a aprendizagem baseada em computadores deve se tornar mais motivante e individualizada para atingir tipos diferentes de alunos - os desenvolvedores de softwares podem se apoderar do meio para customizá-lo em diferentes caminhos de aprendizagem para diferentes alunos.

Acreditamos que haverá um segundo estágio para essa ruptura que possibilitará aos usuários eles mesmos criarem seus módulos de softwares de aprendizagem. Um aluno que tenha dificuldade com um conceito específico, ou seu pai ou professor, poderá encontrar uma solução desenvolvida por outro aluno, pai ou professor para esse desafio específico. Pais e professores poderão diagnosticar porque alunos têm dificuldade em aprender algo e encontrar softwares customizados que já ajudaram outros alunos com as mesmas dificuldades e com o mesmo estilo de aprendizagem. A razão pela qual nós não progredimos nesse caminho não está relacionada à tecnologia. Está relacionado com como a tecnologia tem sido implementada. A aplicação de uma abordagem de ruptura apresenta um caminho promissor para a visão de uma sala de aula completamente transformada.

Texto com tradução livre e adaptado de:
Vídeo do autor Clayton M. Christensen falando sobre o livro
Blog do Christensen
Artigo de Christensen no Edutopia
Artigo sobre o que Christensen fala em relação a inovação na educação

2 comentários:

  1. Esse modelo novo de sala de aula é fantástico e os novos métodos auxiliares da aprendizagem podem ser chave para essa nova escola. A ruptura será lenta, e difícil, mas necessária.Precisamos cativar, encantar, ajudar nossos alunos para que haja um ensino de qualidade. Amei o texto, beijos.

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  2. Percebo uma grande nuvem ideológica sobre esse discurso. Parece uma solução ideal para os administradores e gestores que querem diminuir custos e desumanizar ainda mais as relações sociais. No entanto, é uma ameaça continua para os educadores e para os educandos. Quem é educador de verdade sabe que o professor é aquele que professa o pretenso conhecimento. Todo o conhecimento é construído através do diálogo. E sem interlocuções, não há diálogo; há imposições.

    Creio que essa farsa da EAD é um delírio dos tecnocratas, uma oportunidade para os empreendedores e um desserviço para a educação. Talvez fosse mais útil exonerar toda as secretarias de educação e deixar um computador calcular o IDEB das regiões para gerar um quantitativo junto a uma solução mágica de melhoria da educação. Mais ou menos como o conteúdo que eu li nessa postagem tendenciosa.

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