8.6.09

Os nocautes da vida e a fome de sentido

Hoje não escrevo sobre tecnologia, mas sobre algo muito maior.

Em alguns momentos específicos, a vida nos surpreende com um nocaute. Isso acontece geralmente quando algo inesperado e negativo acontece com a gente ou com pessoas que nos são importantes. Geralmente, esses são momentos quando paramos pra refletir sobre grandes questões. Como e por que as coisas acontecem? Estou no caminho certo? Que sentido tem isso tudo? O que me separa da pessoa que quero ser? Será que estou valorizando e priorizando o que realmente devo?

Já cheguei a uma decisão. Quero que esses momentos de reflexão, de fome de sentido, sejam constantes na minha vida e não dependam mais desses nocautes. Quero também, como educador, ser um instrumento pra que outras pessoas pratiquem e sejam modelos de reflexão. Abaixo, um texto sobre a necessidade da educação para valores, do mestre Antônio Carlos.

A FOME DE SENTIDO

Antonio Carlos Gomes da Costa

Belo Horizonte, junho de 2009.

A FOME DE SENTIDO

Diante das situações de risco cada vez mais disseminadas em todos os âmbitos da vida social, educadores familiares e escolares tem recorrido a um conjunto de práticas, que, para seu desaponto, vão perdendo cada vez mais sua eficácia e efetividade junto aos jovens.

De fato, as investidas do mundo adulto (campanhismo endêmico) contra as drogas, contra a violência, contra a gravidez precoce, contra as doenças sexualmente transmissíveis e contra os abusos no trânsito sobrevivem e são recorrentemente repetidas, não pelos seus méritos, que inexistem ou são desprezíveis, mas pela nossa incapacidade de produzir alternativas válidas e eficazes a estes procedimentos.

Se quisermos abordar de forma articulada e consequente esta questão, o primeiro passo é contextualizá-la no quadro maior dos grandes dinamismos que estão reconfigurando a vida econômica, social, política e cultural neste início de um novo século e de um novo milênio.

A globalização dos mercados, eliminando cada vez mais as barreiras econômicas entre países e expondo as empresas e setores mais frágeis e vulneráveis a uma concorrência para a qual elas jamais pensaram em se preparar. O ingresso na era pós-industrial, desvinculando definitivamente o crescimento da produção, do crescimento do emprego. As novas formas de organização do trabalho, requerendo cada vez menos trabalhadores, porém com mais escolaridade, polivalência, flexibilidade, responsabilidade e criatividade.

Os reflexos destas transformações nos campos econômico e técnico-científico sobre o quadro social têm sido, até o momento, perversos. Hoje, quase não se fala mais na exploração do homem pelo homem. A palavra agora é exclusão. Ser excluído é não servir sequer para ser explorado. E isto vem ocorrendo com pessoas, grupos, regiões dentro de um país e até mesmo com países. Certa vez ouvi de um sindicalista em São Paulo uma observação amarga sobre esse novo quadro: “Pior do que ser explorado por uma multinacional é não ser explorado por uma multinacional”. Hoje, pior do que ser um desempregado é ser um “inimpregável”, ou seja, alguém sem os requisitos mínimos para viver e trabalhar na nova sociedade e na nova economia.

No campo político, o mundo assistiu ao fim da Guerra Fria. O capitalismo e a democracia já não encontram adversários ideológicos à direita e à esquerda. A economia de mercado se impôs de forma hegemônica em quase todo o planeta. Persistem, porém, algumas situações preocupantes: o recrudescimento do populismo na América Latina; as tensões nucleares do Irã e da Coréia do Norte com as potências ocidentais; a questão palestina; a pobreza endêmica e a AIDS na África subsaariana; a degradação ambiental; e as desigualdades intoleráveis, tanto entre pessoas como entre regiões e nações, a corrupção e o crime organizado.

Do ponto de vista cultural, estamos presenciando a emergência e a afirmação da chamada cultura pós-moderna. Marcada pela crise dos grandes relatos, ou seja, das grandes explicações sobre o sentido da vida e do mundo. E isto tem levado ao relativismo ético, ao individualismo exacerbado, ao hedonismo, ao narcisismo e ao consumismo como a grande medida de êxito na vida. “Diga-me o que consomes eu te direi quem és!”

Os jovens educadores de hoje nasceram num mundo onde os estados nacionais eram mais importantes, numa economia industrial, num ambiente político marcado pelo embate ideológico entre capitalistas e socialistas, numa sociedade em que o estado de bem estar social, não existia plenamente, como no Brasil, era um ideal a ser perseguido. E, numa cultura marcada pelos ditames e aspirações da modernidade.

Eles estão chamados a viver, trabalhar e criar suas famílias num mundo globalizado, numa economia pós-industrial, num ambiente político pós-guerra fria, num quadro social fortemente marcado pela exclusão e num ambiente cultural de corte pós-moderno, ou seja, eles nasceram numa etapa do processo civilizatório e vão viver, trabalhar e criar suas famílias em outra etapa deste processo.

É dentro desse quadro, que nossos adolescentes deverão fazer a sua travessia entre o mundo da infância e o mundo adulto. Através de sua trajetória biográfica e relacional, cada jovem deverá plasmar sua identidade e construir o seu projeto de vida, duas tarefas sem as quais esta travessia não se consuma de maneira plena.

Para empreender esta travessia socioexistencial, sempre por “mares nunca dantes navegados”, os jovens deverão realizar quatro encontros fundamentais:

        1. O encontro consigo mesmo: Identidade, autoestima, autoconfiança, autodeterminação, projeto de vida e vontade de autorrealização e autotranscendência;
        1. O encontro com o outro: Abertura, reciprocidade, solidariedade, compromisso, responsabilidade e partilha, tanto nas relações interpessoais como nas relações sociais mais amplas;
        1. O encontro com a natureza: Preocupação, cuidado e zelo com o ambiente natural e social em que se vive e com a preservação da biodiversidade em todo o planeta, compreendendo e aceitando pautar sua vida pelos ideais da sustentabilidade ambiental e das diversidades pessoal e cultural;
        1. O encontro com a dimensão transcendente: Com as grandes indagações da vida humana, ou seja, as indagações acerca do sentido do homem e do mundo.

“As coisas existem, os valores valem”, já dizia Max Scheller, o grande filósofo alemão. Os valores só existem quando valem. E os valores só valem no momento em que os utilizamos para tomar decisões. Se o adolescente aprender a tomar decisões com base em valores, se ele aprender a fundamentar naquilo que tem sentido para ele as suas opções, ele será capaz de autodeterminar-se. E, se o jovem é capaz de autodeterminar-se, por que entupi-lo de campanhas e outros tipos de iniciativa contra isto e contra aquilo? Por que, como educadores, temos acreditado tanto no poder do não e desacreditado tanto no poder do sim?

Valor é aquilo que tira alguém da indiferença. Quando rejeitamos alguma coisa, ela tem para nós um valor negativo. Quando, ao contrário, aspiramos algo, aquilo tem para nós um valor positivo. O não-valor é a indiferença, é o tanto faz. O grande desafio da educação, nos ensina o educador salesiano Ítalo Gastaldi, é criar espaços para os nossos educandos identificarem, interiorizarem e vivenciarem os valores positivos. Este é o fundamento de toda a ação educativa digna deste nome.

O grande responsável pela disseminação das drogas, do álcool, do fumo, da gravidez precoce, das doenças sexualmente transmissíveis e da violência entre os adolescentes é a fome. Não a fome de nutrientes físicos, mas a fome de nutrientes morais. A fome de sentido, que só uma autêntica educação para valores poderá saciar.

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