20.6.11

O Professor como Arquiteto da Aprendizagem


Não é de hoje que grandes pensadores da educação sugerem que os educadores devem abandonar o papel de detentores do conhecimento e centralizadores da atenção nas aulas por uma postura mediadora, que favoreça uma aprendizagem colaborativa, centrada nas necessidades dos alunos. Paulo Freire criticou a “educação bancária” e recomendou uma “educação libertadora” que utilizasse e desenvolvesse a consciência crítica do educador e do educando. Para Moacir Gadotti, o professor deixaria de ser um lecionador e se tornaria um mediador do conhecimento, organizando a aprendizagem. Antônio Carlos Gomes da Costa citou uma metáfora de Peter Senge para explicar que a organização da aprendizagem precisa deixar o modelo de máquina e se transformar no modelo do jardim e do jardineiro, com relações marcadas pelo cuidado, pelo apreço e dedicação à vida de todos e cada um. Com a entrada das novas tecnologias nas escolas públicas e ao contrário do que muitos imaginam, essa mudança pode estar acontecendo.

Pesquisas recentemente realizadas indicam que a maioria dos professores das rede municipal do Rio de Janeiro não mais descarta o computador e a internet como modismos, deseja capacitações frequentes para melhorar seu trabalho com as novas tecnologias e sente-se motivada e receptiva para repensar suas práticas pedagógicas. A pesquisa “Megafone na Escola”, do Instituto Desiderata, concluiu que alunos e professores desejam ter mais computadores, internet e novas tecnologias nas escolas e acreditam que novas tecnologias e novas mídias são elementos essenciais para que “a escola se torne um lugar melhor para estudar e ensinar” e para que as aulas “fiquem melhores”. Uma outra pesquisa, realizada pelo Instituto Oi Futuro e a Secretaria Municipal de Educação, com o apoio do Ibope e do Instituto Paulo Montenegro, apresentou resultados ainda mais surpreendentes. Foram aplicados mais de 35 mil questionários para alunos, professores e diretores, com o objetivo de compreender o relacionamento desses três públicos com as novas tecnologias. As conclusões mais interessantes foram:

- A maioria absoluta dos três públicos (mais de 80% em cada) acredita que as novas tecnologias podem contribuir bastante para a aprendizagem;

- Professores e diretores consideram que capacitações relacionadas à utilização das novas tecnologias são as mais importantes para sua atuação profissional. Em segundo lugar, os professores optaram por capacitações voltadas para a integração de tecnologias às aulas e diretores desejam aquelas voltadas para gestão escolar;

- Os três públicos acreditam na necessidade da utilização das novas tecnologias para o desenvolvimento educacional. Para os alunos, as novas tecnologias os mantêm conectados ao seu mundo, aumentam seu conhecimento e sua autoestima; Para professores, elas são o canal para o conhecimento e para o mundo globalizado; Diretores concordam com os professores e creem que as novas tecnologias também têm o poder de democratizar o acesso à informação, estimulando a participação cidadã;

- 75% dos alunos da rede já têm computadores em casa, 66% deles acessam a internet diariamente de suas casas e menos de 20% ainda dependem de lan houses;

- A utilização de novas tecnologias por professores e diretores para compartilhar práticas ou soluções com colegas e para se conectarem aos alunos e familiares criando uma extensão do ambiente educacional ainda precisa de estímulos;

- Com relação ao conforto na utilização, como previsto, alunos dizem saber utilizar muito mais ferramentas do que professores e diretores e todos os públicos expressam o desejo de participarem de cursos com essa finalidade nas unidades de ensino;

- Mais de 60% de professores e diretores concordam totalmente (cerca de 15%) ou parcialmente (cerca de 45%) que atualmente as novas tecnologias vencem os livros como principal fonte de informação; No caso dos alunos, 45% deles concordam totalmente e 32% concordam parcialmente que a internet é uma melhor fonte de informações do que os livros.

Atenta aos resultados dessas pesquisas que comprovam mudanças na mentalidade e nas expectativas de professores e alunos, a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro está investindo na infraestrutura e manutenção das escolas, planejando cursos de capacitação para professores e gestores e remodelando metodologias, sistemas e práticas, sempre em parceria com o Ministério da Educação, institutos, fundações e empresas. Nossos professores ajudaram a criar e avaliar a utilização da Educopédia, uma plataforma colaborativa de aulas digitais que tem o mesmo peso que apostilas e livros didáticos nas salas de aula. Nessa avaliação, pesquisadores de universidades cariocas descobriram, por exemplo, que a grande maioria dos alunos acha que a plataforma facilita a compreensão dos conceitos, que ajuda no estudo para provas bimestrais e que as aulas ficaram mais interessantes, enquanto somente 9% dos professores acreditam que essa nova ferramenta não teve um impacto positivo na participação e motivação dos alunos. Os resultados de todas essas pesquisas estão à disposição para pesquisadores e para o público em geral.

O impacto das novas tecnologias já é uma realidade na vida de alunos e professores. Avaliar o que os melhores sistemas de educação do mundo fizeram no século passado sem uma análise prévia e cuidadosa desse impacto pode ser um grande erro. Nossas pesquisas em campo comprovam que o professor da cidade do Rio de Janeiro já está reavaliando a sua postura em sala de aula, com o desejo de se tornar um mediador e de aprender junto com os alunos. O investimento em novas ferramentas e procedimentos relacionados às novas tecnologias precisa fazer parte do planejamento estratégico de todos os governos se queremos, de fato, dar um salto na qualidade da educação pública no nosso país. Os educadores e alunos cariocas já sabem disso e estão ávidos por novidades. A preferência é que elas cheguem via Twitter, jogos virtuais e tablets.

14 comentários:

  1. Olá Rafael,

    O Tablet e o twitter dão velocidade a interação.
    Quando chegar o momento dos professores, em tempo real, disponibilizar conteúdos na rede municipal para os alunos, teremos mais elementos de interação entre professor/aluno. Todos ganham. Interatividade Já.
    Parabéns pelo artigo.

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  2. Amigo e grande Professor Francisco,
    Acredito que vários professores já estão usando as redes sociais com seus alunos. Tá certo que é uma pequena parte, mas já é alguma coisa. Obrigado pelo elogio e vamos contagiar a todos com a ideia #conectese para interagir com alunos!

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  3. Linda mensagem por email que recebemos de aluna ontem, sobre a Educopédia: http://yfrog.com/h05ysqzj

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  4. Opa Rafael,

    A simples adoção de tecnologias sem a mudança de paradigmas na Escola não passa de um "verniz de modernidade" na mesma.

    Vejamos o caso da Educopedia: Uma boa ideia que se organiza em torno do paradigma do currículo previamente escolhido pela Escola e que, supostamente, funciona numa sequência linear a ser seguida pelo aluno...(?)

    Sem contar que, como pano de fundo tecnológico, adota formatos fechados (flash, ppt, e etc) num mundo cada mais vez aberto a formato intercabiáveis (abertos): html5, odt, etc


    Uma amiga professora (@bdieu) usou uma metáfora para o nosso papel de professores, no mundo de hoje, que achei bem legal: Os professores devem deixar de ser transmissores (de currículos fechados e estáticos) para se transformarem em "sherpas"... aqueles que, por estarem aprendendo a mais tempo, sugerem caminhos!

    A Educopedia poderia se um bom apoio para "Professores Sherpas", mas hoje, olhando de longe, me parece que serve mais a "professores transmissores", o que é uma contradição pelo que se anuncia.


    PS: Eu já li e reli a página da Educopedia e não consegui entender porque ela é colaborativa? Onde ocorre a colaboração na plataforma?


    abraços

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  5. Oi, Sérgio, ótimas questões que você levantou:

    1) A Educopédia é organizada de acordo com a linearidade do sistema seriado da nossa educação e das orientações curriculares baseadas nos parâmetros do MEC. No entanto, isso não garante (e de fato não acontece) que a experiência seja linear. Os alunos e professores não estão presos a uma aula ou atividade. Podem ir e voltar, para frente ou para trás, da forma que quiserem.

    2) Não temos "religião" quanto a formatos. Os professores e alunos podem utilizar qualquer software de edição de textos e apresentações, desde que esses possam ser lidos também por softwares livres.

    3) Concordo com sua amiga! Não sei se você chegou a ver os "cursos especiais", mas são extras geralmente começados por usuários finais e que fogem do formato "tradicional"

    4) Todas as aulas são criadas, validadas, publicadas e revisadas por grupos de professores. Não há autoria única e o tempo todo estamos recebendo sugestões do mundo pelo educopedia@rioeduca.net e mexendo nas aulas. Na próxima, inclusive, teremos um botão onde professores e alunos incluem mais atividades numa parte pública da aula.

    Espero ter te respondido. Abraços.

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  6. fala ai Rafael.
    admiro muito o seu trabalho, o seu conhecimento, enfim vc é um dos grandes contribuidores para a melhoria da qualidade da educação no nosso pais. Estive em pirinópolis-GO, no encontro realizado pela OI. e olhe só, baseado na sua criação eu e mais dois amigos estamos desenvolvendo uma plataforma educacional para o nosso municipio (Marapanim/PA), falta pouco para ser publicada, esperamos contar com o seu incentivo sempre.

    abraços.

    Fábio Negrão
    fjpnegrao@yahoo.com.br
    fjnmaster@hotmail.com

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  7. Que legal, Fábio! Com certeza, podem contar comigo em tudo que eu puder ajudar. Abraços e boa sorte!

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  8. "desejamos ter mais computadores, internet e novas tecnologias nas escolas"
    E tá "desejado, kkk
    Abrs,
    Marilene

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  9. É isso aí, Marilene... E nós estamos batalhando pesado pra conseguir realizar esse desejo... Beijos!

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  10. Olá Rafael,
    sempre vi a educação e as novas tecnologias como duas paralelas bem distintas!Acredito que a Educopédia (plataforma de aulas digitais) e o Rioeduca.net (portal de troca de melhores práticas)funcionam como uma transversal que tem como missão interligar os profissionais da educação e os alunos em prol de uma educação dinâmica e eficiente. Como tudo que há de bom na vida era necessário ousar e você ousou. Parabéns! Sei que o caminho é longo e que estamos apenas no começo, mas o que importa é que o primeiro passo foi dado e como disse Einstein: A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.
    Beijos!
    Joice .

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  11. Antes da pesquisa, conheci professores que não tiravam nem o note da caixa. Hoje percebo uma mudança significativa. Quero destacar a explosão de blogs que aconteceu este ano!!
    A cada dia, recebo novos endereços para arrolar no blog da Gerência de Educação Infantil.
    A mudança é necessária e inevitável!! Trabalhar sem as novas tecnologias é perder o "trem da história" e ficar na plataforma.
    (E ainda bem que estamos neste trem e fazendo esta história!)
    Quero lhe parabenizar pelo trabalho!!
    Dayse Malagole

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  12. Olá, Rafael
    Sou professora na rede estadual do RS e estamos implementando a reestruturação do Ensino Médio. Estamos fomentando junto aos nossos colegas a disseminação de alunos/professores pesquisadores, usuários de tecnologias e autores de material de socialização de boas práticas. Em virtude disso, indicamos o teu texto como referência de leitura. Teu blog será muito acessado pela gauchada, em breve. Um abraço

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  13. Na nossa escola usamos muito a educopedia, mas entramos diretamente nos sites que pesquisamos em casa, numa velocidade maior. A internet é muito lenta nas salas de informática... Queremos usar a EDUCOTECA, divulgo muito esse instrumento de leitura para todos. Nossas gestoras nos ajudam muito com recursos de investimento local.
    E a velocidade da internet se resolve com quem?
    Na nossa escola estamos semeando informações. Até a Educação infantil utiliza a sala.
    Um ecoabraço!

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