12.11.11

Todos pela inovação!

Um artigo meu foi publicado no Correio Braziliense de hoje. Nele, explico a urgência em buscarmos um novo modelo para a educação brasileira no contexto de um mundo com mudanças cada vez maiores e mais constantes. Confira a íntegra do artigo abaixo.

"É difícil prever a dimensão e a complexidade das oportunidades, desafios e mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais que temos à frente. Já somos 7 bilhões de habitantes na Terra, sendo que 1 bilhão passam fome, e em nenhum outro momento da nossa história tanto conhecimento foi gerado e compartilhado. A globalização, a internet e outras tecnologias têm impactado a forma como pensamos, agimos e nos relacionamos. Só em 2010, mais informação foi gerada do que nos 5000 anos anteriores. Até 2020, a quantidade de informações digitais crescerá 44 vezes. Em 2023, quando os alunos que hoje têm 11 anos estarão começando suas carreiras, eles usarão tablets com mais capacidade computacional do que a de um cérebro humano. Em 2050, os jovens terão no bolso aparelhos móveis com mais capacidade do que a de todos os cérebros do planeta, juntos. Diferentemente de seus pais e avós, os alunos de hoje mudarão de emprego mais de 10 vezes antes dos 40 anos e provavelmente exercerão funções que ainda não foram criadas.

Para exercer essas novas funções com competência, lidar com novas tecnologias na produção ética e responsável de riquezas, navegar funcionalmente em um novo mundo, com a responsabilidade de aproveitar oportunidades e enfrentar desafios, nossas crianças e jovens precisam, hoje, de uma formação excepcional. Eles precisarão ter auto-confiança, se adaptar em diferentes contextos, construir relacionamentos rapidamente e virtualmente, utilizar bem sua criatividade nata e empreender. Precisarão compreender suas forças e fraquezas, emocionais e intelectuais, seus direitos e deveres na vida em comunidade e desenvolver suas potencialidades ao máximo. Precisarão ser autônomos e solidários, compreendendo nossos avanços culturais e, ao mesmo tempo, não só tolerando, mas valorizando diferenças.

No entanto, temos algumas fraquezas sérias no nosso país. Por conta de um atraso histórico no nosso desenvolvimento educacional, precisamos melhorar muito a qualidade da nossa educação pública, nosso sistema educacional está completamente ultrapassado e alguns especialistas acreditam que se focarmos no básico e tornarmos o sistema que está aí mais eficiente, teremos sucesso. Mas isso não será suficiente. Nossas salas de aula se parecem com aquelas de 1890, quando os primeiros sistemas de educação pública foram concebidos para impulsionar a era industrial. Na época, a instituição Escola foi planejada como uma fábrica de produzir operários em massa, de forma impessoal, padronizada e estimulando a conformidade. Esse sistema é completamente incongruente com o tipo de escola e de processo de aprendizagem que precisamos. Cada aluno é único e aprenderá mais e melhor se estiver engajado, interessado e motivado. O processo de educar, de desenvolver competências e habilidades, é, essencialmente e inevitavelmente, pessoal, social, acontece num contexto específico, precisa de tempo para assimilação e requer a construção ativa e a associação de ideias.

Ao contrário da crença comum, também temos ventos que sopram a nosso favor. Educadores e especialistas brasileiros já deram dicas de como podemos transformar a escola que temos naquela que queremos e precisamos. O Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, por exemplo, sugeriu que devemos inovar em conteúdo, método e gestão e utilizar o que os brasileiros têm de melhor, como a diversidade, a criatividade e o “rebolado”, em um novo tipo de "pedagogia bossa-nova". A mudança no papel do professor, de conteudista e centralizador para facilitador e arquiteto da aprendizagem, já foi defendida por Paulo Freire e outros. Temos a consciência que nossos alunos já são nativos digitais e que as novas tecnologias podem quebrar as barreiras de tempo e espaço e nos auxiliar na implantação de um processo de aprendizagem mais customizado e personalizado para estilos e necessidades individuais. Experimentos importantes estão acontecendo atualmente não só em outros países, mas também em estados e cidades brasileiras.

É nosso dever moral incentivar essas experiências na busca por uma educação pública de qualidade. Não adianta reformar a casa se queremos, de fato, levar nossos alunos a desenvolverem conhecimentos suficientes para viverem confortavelmente num mundo super-conectado, de mudanças cada vez maiores e mais constantes. Precisamos experimentar, ousar, reconhecer e responder a padrões emergentes. Precisamos de mudanças de ruptura, de novas formas de pensar e agir. Precisamos de uma educação completamente nova para que nossas crianças e jovens consigam assumir um papel protagonista num mundo completamente novo."

Foto retirada daqui: http://www.flickr.com/photos/umpcportal/4581962986/lightbox/ (alguns direitos reservados)

10 comentários:

  1. "Cada aluno é único e aprenderá mais e melhor se estiver engajado, interessado e motivado." A escola precisa urgentemente de mudança neste aspecto.

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  2. Rafael, o texto é muito bom! É uma análise ampla da atual e da futura situação da educação.Parabéns!

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  3. A "pedagogia bossa-nova" carrega a inovação, a criatividade e a flexibilidade de experimentar que o prof. Antonio Carlos tanto falava - há que se ter coragem e responsabilidade pra mudar! Já estamos atrasados e com uma conta alta a pagar!

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  4. Muito interessante. Os dados apresentados não precisam de maiores referências. Realmente os alunos no futuro passarão por experiências que nem nos sonhos podemos cogitar quais serão. Cabe aos professores realmente interessados em uma educação de qualidade se mobilizarem, estudarem e procurarem se adequar as esse tipo de educação-do-futuro ou não teremos um futuro!
    Parabéns pelo post Rafael

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  5. Rafael,

    Como você escreveu, temos ventos soprando a nosso favor. Fico feliz em saber que nossa rede está trabalhando para uma Escola Nova, inovadora, criativa, conectada!!!

    O avanço está acontecendo, e a Educopedia está mostrando que a inovação nas nossas escolas é possível!!!

    Acredito que a cada ano, avançaremos mais, mais, mais! Nossa rede será referência para o mundo!

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  6. Rafael,


    Bom texto as informações são bem contextualizadas e relevantes. Penso que nó educadores deveríamos ser os primeiros a integrar as TIC no contexto educacional pois, historicamente, a educação é sempre a última a se adaptar as tecnologias que são disponibilizadas. Tem um vídeo do Erik Qualman que acredito que já tenha assistido.

    http://www.youtube.com/watch?v=IhDgC6hArlY

    Esse vídeo mostra a abrangência das mídias sociais em nosso dia a dia. Fica aqui o desafio: Quando começaremos a usar a potencialidade da mídia social na educação??? Entendo o quanto é necessária uma mudança cultural mas podemos mais esperar. Para um mundo em constante evolução necessitamos de inovações pedagógicas que possibilitem a formação de pessoas com o perfil que você evidencia em sua postagem.

    Parabéns pelo texto.

    Vicente Willians
    http://sites.google.com/site/vicentewilliansnunes
    Blog educacional:
    http://vwnunes.blog.uol.com.br/

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  7. Rafael, sou de Brasília, li seu texto no Correio Braziliense, me encantei, surpreendi, me emocionei e considerei bastante similar aos trabalho que, pelo menos, tento fazer por aqui, como pesquisador, conferencista da área de educação. Vc toca numa questão que pra mim é crucial que é a questão do conformismo atávico, que não nos deixa dar um passo para além da educação pós-revolução industrial, no sentido de formar trabalhadores subservientes e consumidores em potencial, o que se dissimula em todas as práticas e exigências pedagógicas, sendo um verdadeiro crime, considerando as realidades de hoje. Tenho um projeto: Pedagogia da Felicidade-uma proposta de educação para o terceiro milênio, que envolve worshops, palestras, oficinas, programas de intervenção, etc. que gostaria de colocar ao dispor, comno parceria. Vc poderá se inteirar melhor do meu trabalho por meio da leitura dos textos afins no meu blog: www.mudandoparadigmas.blogspot.com
    Fico no aguardo:
    Antonio da Costa Neto
    antoniocneto@terra.com.br
    61 3274 27 55
    Gratíssimo. Parabéns, mesmno!

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  8. Caro Rafael Parente,
    Coragem para projetos como o Autonomia Carioca é necessário; necessário também sua implementação efetiva, com planejamento de longo prazo, saindo do plano teórico e adequando à realidade vivida pelo professor em sala de aula. Tal projeto é transformador, não pode ser encarado apenas como uma válvula de escape para os alunos engargalados no sistema seriado, baseado na reprovação.
    @omarcelofreire.

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  9. Obrigado a tod@s pelos comentários!
    Antonio, vou procurar conhecer melhor o seu projeto!
    Marcelo, sou muito fã do Autonomia e acredito que esse projeto realmente tem muito a ensinar para nossa transformação.

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  10. Nos PCN podemos ler, "Cada aluno é sujeito de seu processo de aprendizagem, enquanto o professor é o mediador na interação dos alunos com os objetos de conhecimento".(PCN;1998:93) São 13 anos !!! Vamos refletir até que ponto, nós professores, estamos realmente apenas mediando esse processo. Muito discutimos a respeito da disciplina na sala de aula. Até que ponto a indisciplina surge a partir da falta de autonomia do aluno? Até que ponto ele não se sente prisioneiro desse processo em vez de orientando? Temos que estar preparados para a nossa própria frustração ao ver o aluno nos superar em conhecimento. Temos que incentivar e estimular a pergunta, o questionamento, o duvidar do nosso saber que o aluno apresenta. Aprender envolve dialogar, argumentar, ...Será que Sócrates estava errado? Obviamente que não, pois tudo o que se discute hoje em educação teve origem em Sócrates que pregava a reciprocidade, permitindo que os alunos contestassem seus argumentos da mesma forma que o educador contesta os argumentos dos alunos. Para Socrates e para o real educador, só a troca de idéias dá condições imprescindíveis para o aprendizado.

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