21.3.12

Quem discorda do Gustavo Ioschpe, clica aqui!


(com a colaboração das especialistas Mila Gonçalves e Sônia Bertocchi)

Quando penso que esta discussão sobre a importância da tecnologia na educação já deu o que tinha que dar, algo novo aparece para me surpreender. O Gustavo escreve muito bem, tem um raciocínio afiadíssimo, já criou textos brilhantes, mas o seu último me decepcionou. Os argumentos e as lógicas são equivocadas e há omissão de fatos importantes. Pode ser que o Gustavo precise de mais pesquisas ou ouvir outras opiniões especializadas sobre a integração de novas tecnologias nos processos educativos. Há muita gente séria se dedicando pra valer ao tema. O texto simplifica enormemente a discussão de uma área complexa por natureza, generaliza diversas iniciativas nesse setor e utiliza posições radicais e ultraconservadoras possivelmente com o propósito de perseguir uma agenda.

Listo, abaixo, minhas principais discordâncias:

1) Os laboratórios de informática começaram a surgir há quase duas décadas nas escolas públicas e privadas brasileiras, mas o propósito nunca foi o de "estudar computação". A inserção da máquina na escola aconteceu muito mais para promover o desenvolvimento da informática educativa, capacitar professores, experimentar possibilidades e incluir digitalmente alunos, professores e, algumas vezes, até membros da comunidade escolar. Que profissional pode, no mundo atual, exercer seu trabalho de forma competente sem dominar as novas linguagens tecnológicas? Nossas leis são claras: é também o dever da escola pública preparar crianças e jovens para exercerem uma profissão de forma competente, inseridos, inclusive, na cultura digital.

2) O mesmo Steve Jobs, citado no artigo como alguém desesperançoso com relação ao que as novas tecnologias poderiam fazer pela educação, passou os últimos anos da vida perseguindo um projeto (dentre vários outros) que buscava exatamente isso: transformar a educação com as novas tecnologias. De acordo com esse artigo, “Jobs foi citado pelo seu biógrafo, Walter Isaacson, dizendo que os livros didáticos clamavam por uma transformação. Eles não somente eram entediantes como, por vezes, continham informações ultrapassadas, e também eram pesados”. Segundo as mesmas fontes, Jobs também se preocupava com o cartel dos livros didáticos em seu país. E por isso a Apple lançou o iBooks 2, mais uma invenção desse senhor visionário (e contraditório).

3) É certo que o simples fato de colocar computadores na escola ou na sala de aula não produz resultado nenhum. Como é que, em qualquer área, poderia haver resultado para um investimento em novas tecnologias, sem que aqueles que precisam se apropriar de novos processos passassem por formações? O que o Gustavo não mencionou é que já há vários estudos, bem rigorosos, que comprovam por A + B que o uso eficiente das novas tecnologias provoca um impacto substancial no desenvolvimento cognitivo (por exemplo, nas notas de matemática, línguas, ciências), não cognitivo (autoestima, autonomia, motivação), na disciplina e no relacionamento entre professores e alunos. Esse estudo, por exemplo, foi conduzido pelos Professores Dale Mann, do Teachers College (Columbia University), Charol Shakeshaft (Hofstra University) e um time de pesquisadores da educação. A pesquisa examinou, pela primeira vez, a eficiência de um programa de longo prazo (10 anos) que foi implementado em todo um estado estadunidense e sua conclusão foi que as novas tecnologias aplicadas no processo de aprendizagem impactaram diretamente as notas em matemática, compreensão e produção de textos. Para outras pesquisas sérias que comprovam o impacto das novas tecnologias na aprendizagem, vejam aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

4) Sabemos que as máquinas, a inteligência artificial ou mesmo robôs quase humanos não substituirão os professores, nem a longo prazo. Na verdade, eu gostaria de saber de onde surgiu essa ideia. Ninguém, nem o Khan, nem o Sugata Mitra, nem o mais autodidata de todos os humanos (Ok, esse último eu não sei, rs...) propõem isso. O que se propõe é que o professor tenha um outro papel na escola, assunto que já abordei nesse outro artigo e por isso não vou me prolongar.

5) O artigo enfatiza a necessidade de “dar uma boa aula”, o que nega muito do que já sabemos na neurociência, como o processo de construção de conhecimentos e significados, ou que a visão da transferência de uma cabeça para a outra é algo completamente ultrapassado. Nós atualmente atravessamos uma explosão de descobertas sobre como a mente humana funciona: como memórias têm tipos variados, cada um guardado num canto diferente do cérebro; como nossas mentes constantemente processam informações de forma inconsciente; como diferenças nas funções cerebrais definem variações nas nossas personalidades... Não me parece inteligente ignorar tudo isso. Nas palavras de Celso Vallim, "quando o professor e a escola querem formar um indivíduo pensante, autônomo, analítico, crítico, sensível, humanista, flexível e adaptável, não se pode "dar aula”... A expressão "dar aula" traz embutida em si, o conceito da educação tradicional, a educação conteudista. De maneira simplória, poderíamos dizer que esse tipo de visão escolar prevê que os conteúdos curriculares são coisas já definidas e estanques e que o professor poderá dominá-los por completo e poderá passar aquilo tudo ao aluno”.

6) O Gustavo desvalorizou o potencial da linguagem multimídia e do audiovisual na aprendizagem ao criticar o uso da TV na educação. A generalização e a simplificação da questão levam o leitor a acreditar que não se aprende nada em contato com a mídia. Nesse aspecto, o artigo ainda classifica como semelhantes a TV aberta, broadcasting e a possibilidade muito mais expandida que hoje temos em termos de pontos emissores, com a internet. Seria bom analisar, por exemplo, os dados do projeto Telecurso e seus resultados no Acre, no Rio de Janeiro e em outros lugares do país para uma crítica mais embasada.

7) Por fim, não há dúvidas de que as novas tecnologias, principalmente os computadores (de desktops a smartphones) e a internet têm impactado praticamente todas as áreas e indústrias, além da forma como nos comunicamos, pensamos e nos relacionamos. Como é que ainda pode fazer sentido, para qualquer pessoa de bom senso, defender que a escola e a sala de aula devam permanecer exatamente da mesma forma como eram em mil oitocentos e bolinha?

Eu, Rafael, estudo bastante para ser especialista na área e estou trabalhando com as estratégias da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Precisamos, como gestores, agir com muito cuidado no gasto do dinheiro público. Aqui, estamos investindo na melhoria da infraestrutura de TI, na manutenção, na formação continuada de professores e gestores e na criação de sistemas e conteúdos para transformar oprocesso pedagógico. Tenho a convicção de que as tecnologias podem nos auxiliar quebrando barreiras de tempo e espaço, aumentando a motivação de professores e alunos (essenciais para o sucesso na aprendizagem) e personalizando o desenvolvimento de competências. Afinal, no atual contexto brasileiro, que educador consegue atender individualmente a saberes prévios, estilos de aprendizagem  e necessidades de cada aluno? Mas a inteligência artificial, com sistemas e algoritmos, já pode nos auxiliar.

Até agora, o projeto que teve maior impacto nas notas dos alunos cariocas é chamado "6o ano experimental". Há duas mudanças nesse projeto em relação ao resto da rede: Em vez de de vários professores, o aluno só tem um professor polivalente (como de 1o a 5o anos), e, em sala,  utiliza-se a Educopédia (www.educopedia.com.br), nossa plataforma de aulas digitais. O resultado foi um acréscimo de 20 a 30% nas notas dos alunos em relação ao restante da rede. Também já sabemos que as notas de matemática e português do 2o segmento estão aumentando (as notas de matemática do 8o ano melhoraram bastante na Prova Rio). Alunos, professores e a própria Secretária Claudia Costin creditam boa parte da melhoria à utilização da Educopédia.

Finalizo por aqui, deixando um convite a todos, mas especialmente ao Gustavo Ioschpe e os que ainda duvidam das possibilidades de impacto das novas tecnologias na aprendizagem, para visitarem comigo algumas escolas na cidade e, em conversas com diretores, professores e alunos, verificarem, ao vivo e a cores, o que está, de fato, acontecendo.