24.4.12

O Gustavo clicou e respondeu!

O Gustavo Ioschpe me enviou um email respondendo as críticas que fiz ao seu artigo na Veja. Para ele:
- A maioria das pesquisas que enviei não são confiáveis e a maioria das pesquisas sérias dizem que não há relação entre a integração de novas tecnologias nas escolas e a melhoria de aprendizagem;
- Não se deve investir em TICs como política pública, mas as pesquisas na área devem continuar;
- A minha interpretação das pesquisas é contaminada pela minha paixão pela área;
- A minha interpretação do texto escrito por ele é equivocada em alguns pontos e exagerada em outros;
- O modelo do bom professor de hoje não deve ser muito diferente de um modelo de vários séculos atrás;
- Aceitou o convite para ver o que estamos fazendo no Rio, mas essa experiência não mudará em nada sua opinião.

Eu fiquei feliz com a resposta dele, mesmo que continue discordando bastante. Sou realmente apaixonado pela área, convicto da necessidade de inovarmos para melhorarmos o processo da aprendizagem e que estamos no caminho certo aqui no Rio (muito em breve teremos vários resultados de pesquisas externas). Isso não significa que eu não tenha uma postura crítica e um olhar científico para o tema. Não há como se fazer pesquisa se não houver política pública. Assim como nossos resultados educacionais precisam melhorar, o conceito de escola e a ideia do processo de aprendizagem também. Que o debate continue! :]

E aí vai o texto completo do email:

"Rafael, tudo bem? Desculpe a demora na resposta, o acúmulo de trabalho tá enorme.

Dei uma lida nos papers que você menciona abaixo. Não alteram a minha percepção sobre o resultado geral da pesquisa sobre o tema de ICT em educação. Alguns deles são estudos de ONGs que investem no assunto, outros de think tanks, outros ligados a governos que estão implementando programas de ICT em suas escolas, poucos são de pesquisadores que publicaram seus achados em revistas acadêmicas com peer-review. É uma análise com viés, portanto. Quando você olha pra um resumo da literatura acadêmica, neutra, sobre o assunto, o resultado que emerge – e citado inclusive por alguns dos papers abaixo, como o do infoDev 2005, que escreve “The most pronounced finding of empirical studies on ICT impact is that there is no consistent relationship between the mere availability or use of ICT and student learning.” – é de que não há relação entre o uso de ICT e a melhoria de desempenho acadêmico do alunado. Um dos lit reviews que eu usei pra escrever o artigo na Veja, do mesmo infoDev que você cita abaixo, inclui mais de 100 trabalhos sobre o assunto e chega a conclusões sobre a inexistência dessa relação (vide anexo). O resultado é tanto mais confiável porque publicado por instituição ligada ao Banco Mundial, que investe bastante em ICT e teria até um viés positivo em relação ao tema.
Mais especificamente, todos os estudos que pude encontrar a respeito do tema para países da América Latina e do Brasil são unânimes em apontar o fracasso de programas de ICT ou posse de computadores na melhoria do desempenho acadêmico de alunos. Alguns até apontam haver uma relação negativa e estatisticamente significativa.
Então, sigo acreditando que uma leitura neutra da literatura a respeito não recomenda a adoção de programas de ICT em larga escala como ferramenta para melhorar a qualidade do ensino.

Dito isso, algumas considerações.

A primeira é que o uso de ICTs pode ter outros impactos positivos sobre os alunos, em questões como motivação e até em conhecimento de informática, que não são capturados por testes que medem proficiência acadêmica. Aí é uma questão política e não técnica, que remete ao que queremos de nossas escolas. Pessoalmente, eu acho que no Brasil a prioridade zero – e um, dois e três – dado o baixíssimo desempenho acadêmico de nossos alunos, é de melhorar essas capacidades. Se o aumento da motivação de alunos e professores não se traduz em mais aprendizado, pra mim é irrelevante.

A segunda é que o fato de a pesquisa histórica demonstrar a falta de impacto de uma variável sobre o aprendizado não significa que aquela área não possa trazer bons resultados no futuro. Especialmente em uma área que sofre mudanças e aperfeiçoamentos constantes, como no caso de ICT. Portanto, eu não defenderia que se encerrassem as pesquisas sobre o assunto simplesmente porque até agora não se chegou a um modelo que funciona. Acho que a área é promissora que chega pra que continuemos tentando. Mas acho, sim, que o fracasso de muitas tentativas faz com que essas não devessem se transformar em política pública. Distribuir tablets e laptops pra alunos é algo que já foi testado e não deu resultado. Não acho correta, portanto, a ação do MEC nesse sentido. Mesma coisa com lousas digitais. Acho inadmissível o governo de SP gastar R$ 5,5 bilhões em um programa em que há bastante evidência contrária. Agora em Pernambuco parece que vão equipar as salas de aula com projetores 3D. Daqui a pouco as aulas serão em salas de cinema. Isso me parece criticável e condenável. Não é sério.
Minha posição em relação a ICT é a mesma que em relação a todas as demais variáveis que impactam ou podem impactar o aprendizado: quando houver um consenso da literatura acadêmica (e por consenso eu diria pelo menos uma meia dúzia de estudos em veículos peer-reviewed) mostrando que a variável X impacta positivamente o aprendizado, ela deve ser aplicada em larga escala, via política pública. Se a pesquisa estiver dividida ou o assunto for promissor, projetos-piloto e testes em pequena escala devem ser desenvolvidos, mas a variável não deve embasar políticas públicas de grandes áreas. E se houver consenso na literatura sobre a falta de efeito de uma variável, sua implementação como política pública deveria ser “proibida”, por ser um desperdício de tempo e dinheiro.

Desconheço o programa de ICT do Rio, não sei quanto é gasto em termos de dinheiro e tempo, nem se há algum estudo imparcial de medição do seu impacto, então não vai aqui uma crítica específica ao trabalho de vocês.

Sobre alguns outros pontos do texto no teu blog, respondo pontualmente abaixo, copiando e colando.

O texto simplifica enormemente a discussão de uma área complexa por natureza, generaliza diversas iniciativas nesse setor e utiliza posições radicais e ultraconservadoras possivelmente com o propósito de perseguir uma agenda

Sim, é claro que o texto simplifica a discussão. Nem poderia ser diferente, em se tratando de uma área de pesquisa de trinta anos resumida em artigo de duas páginas. Mas continuo achando que a minha leitura da pesquisa está correta e a tua, contaminada por “wishful thinking” de quem é practitioner do setor e não um observador desapaixonado. Não sei quais são as posições “radicais e ultraconservadoras” a que você se refere. Só rejeito categoricamente a insinuação de que meu texto  tem “possivelmente o propósito de perseguir uma agenda”. Isso é acusação de desonestidade intelectual, coisa que eu não pratico. Minha agenda é a melhoria da qualidade da educação brasileira, e só ela. Se eu defendesse a adoção de tecnologias em larga escala você até poderia fazer essa acusação, mas ao pregar a cautela na sua utilização fica difícil de imaginar qual a agenda que eu estaria perseguindo e quais os interesses que estaria defendendo. Certamente todas as empresas de ICT não ficaram satisfeitas com o meu artigo, e não vejo exatamente quem se beneficiou dele.

1)       Os laboratórios de informática começaram a surgir há quase duas décadas nas escolas públicas e privadas brasileiras, mas o propósito nunca foi o de "estudar computação".

Não conheço estudos quantitativos a respeito, mas posso te dizer com certeza que a frase acima está errada. Já estive em várias escolas – inclusive em uma que eu mesmo estudei – em que o objetivo do laboratório de informática era justamente de aprender a mexer com computadores, sem nenhuma intenção pedagógica.

Que profissional pode, no mundo atual, exercer seu trabalho de forma competente sem dominar as novas linguagens tecnológicas?

Posso pensar em algumas dezenas de profissionais, da empregada doméstica ao agricultor, que podem exercer seu trabalho de forma competente sem dominar as novas linguagens tecnológicas. Mas concordo com o ponto mais amplo de que o domínio de informático é positivo e importante para a maioria das carreiras. Mas a pergunta é: a escola é o local ideal para esse ensino? Note que você se contradiz: primeiro diz que a escola não ensina informática, depois diz que deveria. A pesquisa mostra claramente que ter um computador em casa é significativo para o aprendizado do aluno, mas te-lo na escola, não. Isso leva a crer que talvez esse aprendizado ocorra melhor em um sistema de imersão, ou quando o aluno tem o controle do que fará com a máquina, ou simplesmente porque ele já sabe mais sobre computadores do que seu professor e portanto não se beneficia em nada de uma aula a respeito na escola. Se é esse o caso, seria uma política pública melhor dar a toda criança um computador para que o tenha em casa, ou dinheiro para acessar uma lan house, do que investir para informatizar escolas. O segundo ponto é o que já discutimos sobre a função da escola. Eu acho que ela deve estar focada, antes de mais nada, no domínio de saberes e competências básicos, coisa que o Brasil ainda não conseguiu. Acho mais importante, pra sua vida e pra sua carreira, que a pessoa seja solidamente alfabetizada e uma ignorante em termos de informática do que o oposto (se é que o oposto é possível). Portanto, acho que a ênfase das políticas públicas deveria estar direcionada a essa meta.

O que o Gustavo não mencionou é que já há vários estudos, bem rigorosos, que comprovam por A + B que o uso eficiente das novas tecnologias provoca um impacto substancial no desenvolvimento cognitivo (por exemplo, nas notas de matemática, línguas, ciências), não cognitivo (autoestima, autonomia, motivação), na disciplina e no relacionamento entre professores e alunos.

O que o Rafael não mencionou é que, apesar de haver estudos mostrando isso, a esmagadora maioria dos estudos não encontra essa relação.

4) Sabemos que as máquinas, a inteligência artificial ou mesmo robôs quase humanos não substituirão os professores, nem a longo prazo.

Não sei como você pode afirmar isso peremptoriamente. Eu não tenho essa certeza. Não sei se já leu Kurzweil, “The Singularity is Near”, mas se não leu deveria.

5) O artigo enfatiza a necessidade de “dar uma boa aula”, o que nega muito do que já sabemos na neurociência, como o processo de construção de conhecimentos e significados, ou que a visão da transferência de uma cabeça para a outra é algo completamente ultrapassado.

Essa leitura do que eu escrevi é tão equivocada que beira a desonestidade. Escrevi explicitamente: “A idéia de que a educação é um processo unidirecional de transferência do conteúdo do professor para o aluno é equivocada”. “Dar uma boa aula”, pra mim, significa incorporar todos os achados da neurociência, engajar o aluno, ter enorme interatividade. Só não acredito que essa boa aula necessite de ferramentas tecnológicas, porque a pesquisa empírica assim o demonstra. Os melhores sistemas educacionais do mundo não são os mais informatizados. Não há relação entre nível de tecnologia em sala de aula e excelência acadêmica. Você leu esse tal de Celso Vallim dizendo que “dar aula” traz embutido um conceito tradicional de educação e ignorou o que estava explicitamente dito no artigo.

6) O Gustavo desvalorizou o potencial da linguagem multimídia e do audiovisual na aprendizagem ao criticar o uso da TV na educação. A generalização e a simplificação da questão levam o leitor a acreditar que não se aprende nada em contato com a mídia.

Olha, acho bem exagerada essa leitura. Não recebi nenhum feedback de outros leitores com essa leitura de que “não se aprende nada em contato com a mídia”. Nem critiquei o uso da TV em educação. Meu ponto foi de que se a mera transmissão de uma boa aula por ferramentas tecnológicas fosse possível, não seria necessária a internet pra consegui-lo, a TV já o teria feito. O fato de que a TV não se mostrou uma ferramenta capaz de melhorar significativamente a qualidade da educação aponta que o caminho não é esse, o que tem conseqüências – ou pelo menos é um alerta – para os entusiastas de EAD na educação básica.

Como é que ainda pode fazer sentido, para qualquer pessoa de bom senso, defender que a escola e a sala de aula devam permanecer exatamente da mesma forma como eram em mil oitocentos e bolinha?

Em primeiro lugar, jamais defendi que a escola e sala de aula permaneçam “exatamente da mesma forma” como eram “em mil oitocentos e bolinha”. Já escrevi em outros artigos e livros mostrando que coisas como laboratório de ciências e até máquinas de xerox, que não existiam “em mil oitocentos e bolinha”, têm impacto estatisticamente significativo sobre o aprendizado. Agora, não vou negar que, até hoje, o modelo de um bom professor não difere muito de um modelo não de “mil oitocentos e bolinha”, mas bem mais antigo, que remonta à Academia de Platão. E não é por acaso que, em um mundo de tantas e tamanhas mudanças, e de tanta diversidade entre países e culturas, o cerne básico do que é o processo de aprendizado tenha se mantido surpreendentemente constante por mais de dois mil anos, em todas as latitudes e longitudes. Muitas das variáveis que faziam uma escola ou professor de sucesso há quinhentos anos– professor bem preparado, conhecendo profundamente seu assunto, maiêutica, leituras aprofundadas, trabalho constante por parte do aluno através de dever de casa e avaliações, ambientes ordeiros etc. – continuam sendo efetivas hoje. E o ônus da prova está com os reformadores. Se você quer mudar essa estrutura – e há muita coisa que poderia ser muito melhorada, sem dúvida – precisa apresentar evidências de que os novos métodos, quer eles envolvam nova tecnologia ou outras inovações, produzem resultados superiores. Conforme já disse, não duvido de que a tecnologia venha a trazer melhorias significativas ao processo de ensino-aprendizagem, mas até hoje esse novo formato superior não foi ainda encontrado.

Tenho a convicção de que as tecnologias podem nos auxiliar quebrando barreiras de tempo e espaço, aumentando a motivação de professores e alunos (essenciais para o sucesso na aprendizagem) e personalizando o desenvolvimento de competências.

Quando a gente tem convicção a priori, costuma-se fazer má ciência, má pesquisa. Eu não tenho convicção nenhuma. Nem da efetividade da tecnologia, nem de sua irrelevância. Apenas consulto o consenso da literatura empírica sobre o assunto.

Finalizo por aqui, deixando um convite a todos, mas especialmente ao Gustavo Ioschpe e os que ainda duvidam das possibilidades de impacto das novas tecnologias na aprendizagem, para visitarem comigo algumas escolas na cidade e, em conversas com diretores, professores e alunos, verificarem, ao vivo e a cores, o que está, de fato, acontecendo.

O convite está aceito e seria um prazer. Mas infelizmente nada do que eu vir ou ouvir vai me fazer tomar uma posição no que concerne a utilização de tecnologia em sala de aula como política pública. Defendo que a política pública seja baseada em evidências oriundas de pesquisa empírica. Seria tão leviano e irresponsável me deixar convencer sobre os efeitos positivos da tecnologia visitando as tuas escolas de sucesso quanto me deixar convencer do contrário ao visitar outras escolas em que esse efeito não é observado. Espero que a ferramenta de vocês, que supostamente aumenta as notas dos alunos em 20% ou mais, tenha sua eficácia ratificada por avaliações cuidadosas da sua execução e que, depois, esse impacto seja reproduzível em outros lugares do país. Aí eu certamente vou ser um entusiasta e defensor desse método, porque realmente não há nada de que o país precise mais do que proporcionar um salto de qualidade às suas crianças.

Agradeceria se você pudesse compartilhar essas reflexões com os seus leitores.

Abs."