24.4.12

O Gustavo clicou e respondeu!

O Gustavo Ioschpe me enviou um email respondendo as críticas que fiz ao seu artigo na Veja. Para ele:
- A maioria das pesquisas que enviei não são confiáveis e a maioria das pesquisas sérias dizem que não há relação entre a integração de novas tecnologias nas escolas e a melhoria de aprendizagem;
- Não se deve investir em TICs como política pública, mas as pesquisas na área devem continuar;
- A minha interpretação das pesquisas é contaminada pela minha paixão pela área;
- A minha interpretação do texto escrito por ele é equivocada em alguns pontos e exagerada em outros;
- O modelo do bom professor de hoje não deve ser muito diferente de um modelo de vários séculos atrás;
- Aceitou o convite para ver o que estamos fazendo no Rio, mas essa experiência não mudará em nada sua opinião.

Eu fiquei feliz com a resposta dele, mesmo que continue discordando bastante. Sou realmente apaixonado pela área, convicto da necessidade de inovarmos para melhorarmos o processo da aprendizagem e que estamos no caminho certo aqui no Rio (muito em breve teremos vários resultados de pesquisas externas). Isso não significa que eu não tenha uma postura crítica e um olhar científico para o tema. Não há como se fazer pesquisa se não houver política pública. Assim como nossos resultados educacionais precisam melhorar, o conceito de escola e a ideia do processo de aprendizagem também. Que o debate continue! :]

E aí vai o texto completo do email:

"Rafael, tudo bem? Desculpe a demora na resposta, o acúmulo de trabalho tá enorme.

Dei uma lida nos papers que você menciona abaixo. Não alteram a minha percepção sobre o resultado geral da pesquisa sobre o tema de ICT em educação. Alguns deles são estudos de ONGs que investem no assunto, outros de think tanks, outros ligados a governos que estão implementando programas de ICT em suas escolas, poucos são de pesquisadores que publicaram seus achados em revistas acadêmicas com peer-review. É uma análise com viés, portanto. Quando você olha pra um resumo da literatura acadêmica, neutra, sobre o assunto, o resultado que emerge – e citado inclusive por alguns dos papers abaixo, como o do infoDev 2005, que escreve “The most pronounced finding of empirical studies on ICT impact is that there is no consistent relationship between the mere availability or use of ICT and student learning.” – é de que não há relação entre o uso de ICT e a melhoria de desempenho acadêmico do alunado. Um dos lit reviews que eu usei pra escrever o artigo na Veja, do mesmo infoDev que você cita abaixo, inclui mais de 100 trabalhos sobre o assunto e chega a conclusões sobre a inexistência dessa relação (vide anexo). O resultado é tanto mais confiável porque publicado por instituição ligada ao Banco Mundial, que investe bastante em ICT e teria até um viés positivo em relação ao tema.
Mais especificamente, todos os estudos que pude encontrar a respeito do tema para países da América Latina e do Brasil são unânimes em apontar o fracasso de programas de ICT ou posse de computadores na melhoria do desempenho acadêmico de alunos. Alguns até apontam haver uma relação negativa e estatisticamente significativa.
Então, sigo acreditando que uma leitura neutra da literatura a respeito não recomenda a adoção de programas de ICT em larga escala como ferramenta para melhorar a qualidade do ensino.

Dito isso, algumas considerações.

A primeira é que o uso de ICTs pode ter outros impactos positivos sobre os alunos, em questões como motivação e até em conhecimento de informática, que não são capturados por testes que medem proficiência acadêmica. Aí é uma questão política e não técnica, que remete ao que queremos de nossas escolas. Pessoalmente, eu acho que no Brasil a prioridade zero – e um, dois e três – dado o baixíssimo desempenho acadêmico de nossos alunos, é de melhorar essas capacidades. Se o aumento da motivação de alunos e professores não se traduz em mais aprendizado, pra mim é irrelevante.

A segunda é que o fato de a pesquisa histórica demonstrar a falta de impacto de uma variável sobre o aprendizado não significa que aquela área não possa trazer bons resultados no futuro. Especialmente em uma área que sofre mudanças e aperfeiçoamentos constantes, como no caso de ICT. Portanto, eu não defenderia que se encerrassem as pesquisas sobre o assunto simplesmente porque até agora não se chegou a um modelo que funciona. Acho que a área é promissora que chega pra que continuemos tentando. Mas acho, sim, que o fracasso de muitas tentativas faz com que essas não devessem se transformar em política pública. Distribuir tablets e laptops pra alunos é algo que já foi testado e não deu resultado. Não acho correta, portanto, a ação do MEC nesse sentido. Mesma coisa com lousas digitais. Acho inadmissível o governo de SP gastar R$ 5,5 bilhões em um programa em que há bastante evidência contrária. Agora em Pernambuco parece que vão equipar as salas de aula com projetores 3D. Daqui a pouco as aulas serão em salas de cinema. Isso me parece criticável e condenável. Não é sério.
Minha posição em relação a ICT é a mesma que em relação a todas as demais variáveis que impactam ou podem impactar o aprendizado: quando houver um consenso da literatura acadêmica (e por consenso eu diria pelo menos uma meia dúzia de estudos em veículos peer-reviewed) mostrando que a variável X impacta positivamente o aprendizado, ela deve ser aplicada em larga escala, via política pública. Se a pesquisa estiver dividida ou o assunto for promissor, projetos-piloto e testes em pequena escala devem ser desenvolvidos, mas a variável não deve embasar políticas públicas de grandes áreas. E se houver consenso na literatura sobre a falta de efeito de uma variável, sua implementação como política pública deveria ser “proibida”, por ser um desperdício de tempo e dinheiro.

Desconheço o programa de ICT do Rio, não sei quanto é gasto em termos de dinheiro e tempo, nem se há algum estudo imparcial de medição do seu impacto, então não vai aqui uma crítica específica ao trabalho de vocês.

Sobre alguns outros pontos do texto no teu blog, respondo pontualmente abaixo, copiando e colando.

O texto simplifica enormemente a discussão de uma área complexa por natureza, generaliza diversas iniciativas nesse setor e utiliza posições radicais e ultraconservadoras possivelmente com o propósito de perseguir uma agenda

Sim, é claro que o texto simplifica a discussão. Nem poderia ser diferente, em se tratando de uma área de pesquisa de trinta anos resumida em artigo de duas páginas. Mas continuo achando que a minha leitura da pesquisa está correta e a tua, contaminada por “wishful thinking” de quem é practitioner do setor e não um observador desapaixonado. Não sei quais são as posições “radicais e ultraconservadoras” a que você se refere. Só rejeito categoricamente a insinuação de que meu texto  tem “possivelmente o propósito de perseguir uma agenda”. Isso é acusação de desonestidade intelectual, coisa que eu não pratico. Minha agenda é a melhoria da qualidade da educação brasileira, e só ela. Se eu defendesse a adoção de tecnologias em larga escala você até poderia fazer essa acusação, mas ao pregar a cautela na sua utilização fica difícil de imaginar qual a agenda que eu estaria perseguindo e quais os interesses que estaria defendendo. Certamente todas as empresas de ICT não ficaram satisfeitas com o meu artigo, e não vejo exatamente quem se beneficiou dele.

1)       Os laboratórios de informática começaram a surgir há quase duas décadas nas escolas públicas e privadas brasileiras, mas o propósito nunca foi o de "estudar computação".

Não conheço estudos quantitativos a respeito, mas posso te dizer com certeza que a frase acima está errada. Já estive em várias escolas – inclusive em uma que eu mesmo estudei – em que o objetivo do laboratório de informática era justamente de aprender a mexer com computadores, sem nenhuma intenção pedagógica.

Que profissional pode, no mundo atual, exercer seu trabalho de forma competente sem dominar as novas linguagens tecnológicas?

Posso pensar em algumas dezenas de profissionais, da empregada doméstica ao agricultor, que podem exercer seu trabalho de forma competente sem dominar as novas linguagens tecnológicas. Mas concordo com o ponto mais amplo de que o domínio de informático é positivo e importante para a maioria das carreiras. Mas a pergunta é: a escola é o local ideal para esse ensino? Note que você se contradiz: primeiro diz que a escola não ensina informática, depois diz que deveria. A pesquisa mostra claramente que ter um computador em casa é significativo para o aprendizado do aluno, mas te-lo na escola, não. Isso leva a crer que talvez esse aprendizado ocorra melhor em um sistema de imersão, ou quando o aluno tem o controle do que fará com a máquina, ou simplesmente porque ele já sabe mais sobre computadores do que seu professor e portanto não se beneficia em nada de uma aula a respeito na escola. Se é esse o caso, seria uma política pública melhor dar a toda criança um computador para que o tenha em casa, ou dinheiro para acessar uma lan house, do que investir para informatizar escolas. O segundo ponto é o que já discutimos sobre a função da escola. Eu acho que ela deve estar focada, antes de mais nada, no domínio de saberes e competências básicos, coisa que o Brasil ainda não conseguiu. Acho mais importante, pra sua vida e pra sua carreira, que a pessoa seja solidamente alfabetizada e uma ignorante em termos de informática do que o oposto (se é que o oposto é possível). Portanto, acho que a ênfase das políticas públicas deveria estar direcionada a essa meta.

O que o Gustavo não mencionou é que já há vários estudos, bem rigorosos, que comprovam por A + B que o uso eficiente das novas tecnologias provoca um impacto substancial no desenvolvimento cognitivo (por exemplo, nas notas de matemática, línguas, ciências), não cognitivo (autoestima, autonomia, motivação), na disciplina e no relacionamento entre professores e alunos.

O que o Rafael não mencionou é que, apesar de haver estudos mostrando isso, a esmagadora maioria dos estudos não encontra essa relação.

4) Sabemos que as máquinas, a inteligência artificial ou mesmo robôs quase humanos não substituirão os professores, nem a longo prazo.

Não sei como você pode afirmar isso peremptoriamente. Eu não tenho essa certeza. Não sei se já leu Kurzweil, “The Singularity is Near”, mas se não leu deveria.

5) O artigo enfatiza a necessidade de “dar uma boa aula”, o que nega muito do que já sabemos na neurociência, como o processo de construção de conhecimentos e significados, ou que a visão da transferência de uma cabeça para a outra é algo completamente ultrapassado.

Essa leitura do que eu escrevi é tão equivocada que beira a desonestidade. Escrevi explicitamente: “A idéia de que a educação é um processo unidirecional de transferência do conteúdo do professor para o aluno é equivocada”. “Dar uma boa aula”, pra mim, significa incorporar todos os achados da neurociência, engajar o aluno, ter enorme interatividade. Só não acredito que essa boa aula necessite de ferramentas tecnológicas, porque a pesquisa empírica assim o demonstra. Os melhores sistemas educacionais do mundo não são os mais informatizados. Não há relação entre nível de tecnologia em sala de aula e excelência acadêmica. Você leu esse tal de Celso Vallim dizendo que “dar aula” traz embutido um conceito tradicional de educação e ignorou o que estava explicitamente dito no artigo.

6) O Gustavo desvalorizou o potencial da linguagem multimídia e do audiovisual na aprendizagem ao criticar o uso da TV na educação. A generalização e a simplificação da questão levam o leitor a acreditar que não se aprende nada em contato com a mídia.

Olha, acho bem exagerada essa leitura. Não recebi nenhum feedback de outros leitores com essa leitura de que “não se aprende nada em contato com a mídia”. Nem critiquei o uso da TV em educação. Meu ponto foi de que se a mera transmissão de uma boa aula por ferramentas tecnológicas fosse possível, não seria necessária a internet pra consegui-lo, a TV já o teria feito. O fato de que a TV não se mostrou uma ferramenta capaz de melhorar significativamente a qualidade da educação aponta que o caminho não é esse, o que tem conseqüências – ou pelo menos é um alerta – para os entusiastas de EAD na educação básica.

Como é que ainda pode fazer sentido, para qualquer pessoa de bom senso, defender que a escola e a sala de aula devam permanecer exatamente da mesma forma como eram em mil oitocentos e bolinha?

Em primeiro lugar, jamais defendi que a escola e sala de aula permaneçam “exatamente da mesma forma” como eram “em mil oitocentos e bolinha”. Já escrevi em outros artigos e livros mostrando que coisas como laboratório de ciências e até máquinas de xerox, que não existiam “em mil oitocentos e bolinha”, têm impacto estatisticamente significativo sobre o aprendizado. Agora, não vou negar que, até hoje, o modelo de um bom professor não difere muito de um modelo não de “mil oitocentos e bolinha”, mas bem mais antigo, que remonta à Academia de Platão. E não é por acaso que, em um mundo de tantas e tamanhas mudanças, e de tanta diversidade entre países e culturas, o cerne básico do que é o processo de aprendizado tenha se mantido surpreendentemente constante por mais de dois mil anos, em todas as latitudes e longitudes. Muitas das variáveis que faziam uma escola ou professor de sucesso há quinhentos anos– professor bem preparado, conhecendo profundamente seu assunto, maiêutica, leituras aprofundadas, trabalho constante por parte do aluno através de dever de casa e avaliações, ambientes ordeiros etc. – continuam sendo efetivas hoje. E o ônus da prova está com os reformadores. Se você quer mudar essa estrutura – e há muita coisa que poderia ser muito melhorada, sem dúvida – precisa apresentar evidências de que os novos métodos, quer eles envolvam nova tecnologia ou outras inovações, produzem resultados superiores. Conforme já disse, não duvido de que a tecnologia venha a trazer melhorias significativas ao processo de ensino-aprendizagem, mas até hoje esse novo formato superior não foi ainda encontrado.

Tenho a convicção de que as tecnologias podem nos auxiliar quebrando barreiras de tempo e espaço, aumentando a motivação de professores e alunos (essenciais para o sucesso na aprendizagem) e personalizando o desenvolvimento de competências.

Quando a gente tem convicção a priori, costuma-se fazer má ciência, má pesquisa. Eu não tenho convicção nenhuma. Nem da efetividade da tecnologia, nem de sua irrelevância. Apenas consulto o consenso da literatura empírica sobre o assunto.

Finalizo por aqui, deixando um convite a todos, mas especialmente ao Gustavo Ioschpe e os que ainda duvidam das possibilidades de impacto das novas tecnologias na aprendizagem, para visitarem comigo algumas escolas na cidade e, em conversas com diretores, professores e alunos, verificarem, ao vivo e a cores, o que está, de fato, acontecendo.

O convite está aceito e seria um prazer. Mas infelizmente nada do que eu vir ou ouvir vai me fazer tomar uma posição no que concerne a utilização de tecnologia em sala de aula como política pública. Defendo que a política pública seja baseada em evidências oriundas de pesquisa empírica. Seria tão leviano e irresponsável me deixar convencer sobre os efeitos positivos da tecnologia visitando as tuas escolas de sucesso quanto me deixar convencer do contrário ao visitar outras escolas em que esse efeito não é observado. Espero que a ferramenta de vocês, que supostamente aumenta as notas dos alunos em 20% ou mais, tenha sua eficácia ratificada por avaliações cuidadosas da sua execução e que, depois, esse impacto seja reproduzível em outros lugares do país. Aí eu certamente vou ser um entusiasta e defensor desse método, porque realmente não há nada de que o país precise mais do que proporcionar um salto de qualidade às suas crianças.

Agradeceria se você pudesse compartilhar essas reflexões com os seus leitores.

Abs."

18 comentários:

  1. Será que o Gustavo Ioschpe entende como pesquisa confiável apenas aquelas nas qualis encontra sustentação para as suas opiniões pessoais manifestas?
    Existem pesquisas que mostram que não houve ganhos em, p.e., Matemática e uso da linguagem com o uso das tecnologias digitais de informação e comunicação [TDIC], assim como existem as que revelam o contrário.
    E ainda existem pesquisas, que tenho como sérias, que revelam que o uso das TDIC significam ganhos para os alunos, em competências e habilidades, que não podem ser quantificados nos exames oficiais.
    Mas as transformações não virão, como jamais vieram, apenas pela chegada de computadores na escolas. Se eles ali se "acomodarem" ao que a escoa já faz, sempre fez, as mudanças serão pequenas. Mas se começarmos a pensar em um novo currículo, que integra as TDIC, e principalmente conseguirmos pratica-lo de fato na escola, então teremos oportunidade de mudar mais coisas para melhor.

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    1. Simão, é muito complicado estabelecer que pesquisas são ou não confiáveis. A maioria das pesquisas que o Gustavo considera sérias foram feitas em outros países com contextos sociais, econômicos e históricos bem diferentes dos nossos e, via de regra, suas conclusões não poderiam ser aplicadas no Brasil. Concordo com você que a simples presença de computadores não traz mudança nenhuma.

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  2. Caro Rafael,

    Sou educadora e professora e comungo com suas linhas de pensamento quanto às TICs aplicadas à educação e à aprendizagem...
    Discordo como voce do Ioschpe e acredito ser restrito pensar que a tecnologia exclui profissões como empregada doméstica e agricultores na hora da necessidade de aprender e aplicar tecnologia em suas profissões. Diria discriminatório, já que geladeiras contam com saida USB, tratores contam com computadores e já existe um programa do MCTI/IBICT que trata da tecnologia no campo( Corredor Digital).
    Bem, muitas pesquisa podem até não comprovar "niente", mas os resultados falam por si só.

    Sou como você: acredito que a integração de novas tecnologias nas escolas resulta na melhoria de aprendizagem sim.

    Bem, cada qual é cada qual, e por mais que alguém tenha um nome expressivo no mercado não significa que tem o conhecimento pleno. Digo ainda que, é necessário se abrir para o novo.Trabalho na Biblioteca Nacional de Brasilia e busco levar a todos a educação e tecnologia como aliadas.

    Bem, caso você tenha boas noticias nessa área de tecnologia aplicada a educação, basta manda-las: guielisa@ gmail.com

    Abraços,

    e vamos à luta...

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    1. Olá, Guielisa, esse campo é super novo e estamos só no início de uma compreensão de como acontecerá essa transformação de rompimento que a internet causará na educação informal e formal. Continuarei afirmando: todos os que duvidarem disso serão surpreendidos.

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  3. Acompanho os textos e entrevistas de Gustavo Ioschpe há alguns anos e entendo que ele iniciou e continua desenvolvendo um papel único no estudo da educação do país: a divulgação em larga escala de números e dados estatísticos que lançam uma luz sobre o marasmo em que se encontra o sistema educacional. Devido ao seu enfoque rigorosamente científico, que corresponde ao tipo de personalidade e de inteligência que lhe é próprio, é natural um certo ceticismo com respeito a teorias e práticas cujos resultados ainda não possam ser quantificados. Política pública é assunto muito sério que no Brasil tem sido levado "na flauta" durante gerações. Tenho também um certo ceticismo, partindo porém de uma premissa totalmente diferente: a convivência de mais de duas décadas com pais (entre os quais me incluo) e alunos da rede pública e particular de todos os cantos do país, bem como o profundo conhecimento da vida escolar do ponto de vista do usuário e mantenedor da escola. Quando Gustavo pediu, através do twitter, informações sobre práticas eficazes do uso da tecnologia em sala de aula, peguei carona no seu apelo e solicitei informações sobre algum método que pudesse ajudar na educação de crianças dislexas ou TDAH,que muitas vezes só se acalmam no computador. Praticamente toda semana recebo, através do blog EducaFórum, apelos desesperados de pais de alunos nessas condições, que se sentem ludibriados e até roubados por escolas que aceitam seus filhos e depois de algum tempo os "convidam" a retirá-los, porque não sabem como trabalhar com eles. Bom, meu apelo "de carona" não deu em nada e isso até confirma a tese do Gustavo: ninguém ainda pode GARANTIR resultados através do uso da tecnologia em sala de aula. Por outro lado, estou me deliciando com a Educopédia da SME do Rio de Janeiro (Cláudia Costin para Presidente do Brasiiiiiil!!!), um achado que estou testando e que acredito poderia ser uma solução para a educação em nível nacional, se... o sistema educacional público não fosse tão desigual e negligenciado, se houvesse seriedade e empenho na política educacional. São muitos "se". Por isso acho que o trabalho do Gustavo é fundamental, ao buscar respostas claras e sérias para problemas complexos e profundos.

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    1. Olá, Giulia, por favor leia meu comentário acima acerca da validade ou não de resultados de pesquisas. Afirmar categoricamente que resultados valem ou não para contextos diferentes é algo extremamente perigoso. Ao mesmo tempo, como afirmo no meu texto anterior, acho o Gustavo brilhante e admiro o trabalho que ele tem feito, apesar de discordar de várias opiniões dele -- não deixam de ser opiniões, por mais que ele insista serem baseadas em pesquisas rigorosas.

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  4. Olá,
    Li toda discussão e tenho que concordar plenamente com o pesquisador Gustavo. Ser um entusiasta das TICs não é o mesmo que conduzir pesquisas em campo para verificar se existe relação entre o que se espera e o que se alcançou de fato com um projeto. A Educopédia eu não sei se é a mesma para quem a visita, sem login, e para quem a usa com login, mas fazendo uma análise inicial do modelo ali aplicado, ela reproduz a lógica da linearidade clássica dos materiais impressos de "mil oitocentos e bolinha".
    Digo isso porque ela adota o modelo sequencial de lições cumulativas, modelo este criado com a didática baseada nos materiais impressos em larga escala (livros, apostilas, cadernos), com a crença de que a aprendizagem para atingir um nivel x, deve antes passar por um nível y.
    A didática proposta com as TICs quebra esta lógica linear usando o que o meio digital traz de diferencial: hipertextualidade e interatividade. A hipertextualidade é multi-sequencial e não-linear, ou seja, a pessoa aprende por conexões associativas, respeitando nosso modelo cognitivo de memória não-reprodutiva. Ou seja, aprendemos associando elementos e não os decorando, pois nossa memória de curto prazo logo é perdida e a memória de longo prazo é associativa.
    Dessa forma, acho que conceitualmente a proposta da Educopédia mantém o tradicional modelo de aprendizagem e em nada tem de semelhante a projetos como a Wikipédia, que trabalha com a não-linearidade e a interconexão dos seus conteúdos (verbetes são blocos ideativos que se associam via links e permitem uma navegação não sequencial).
    Quanto à interatividade, a Educopédia mantém a autoria única, individual, contrariando os moedelos emergentes de autoria aberta e coletiva, tal como a proposta dos Recursos Educacionais Abertos, que exigem uma autoria contínua e disponível a quem os acessa (daí a liberação das licenças).
    Se o digital é maleável, a Educopédia perde o que esse digital tem de melhor, e aprisiona conteúdos definitivos que devem ser simplesmente "passados" em lições. Dessa forma, somente acrescentando vídeos e áudios, o que um livro acompanhado de um DVD explicativo faria muito bem o mesmo papel. Por isso talvez a decepção com os estudos sobre eficácia de TICs, visto que boa parte dos projetos não mudam fundamentos paradigmáticos, mas os reeditam em uma roupagem aparentemente inovadora.
    Enfim, a Educopédia, se estiver se referindo ao projeto coletivo e interativo da Wikipédia, faz essa referência sem ter os requisitos básicos de uma didática voltada a uma autoria coletiva e de fato interativa.

    Recomendo a leitura de Lúcia Santaella, Marco Silva, Alex Primo e André Lemos para entender como esta nova didática baseada no digital pode ser implementada de fato.

    Abraços,
    Alexandre Rosado

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    1. Oi, Alexandre.
      Discordo da sua visão e acho que você precisa conhecer a plataforma melhor. A ferramenta "bússola" permite que alunos e professores naveguem de forma não linear. Na rede do Rio, inclusive, estimulamos os professores a publicarem atividades extras, customizando as aulas e utilizando só as atiidades que quiserem e na ordem que quiserem. Alunos logados podem publicar textos nos cadernos digitais, podem bater papo com outros alunos, monitores e professores e podem deixar anotações nas aulas. Na Educoteca (será lançada em 09/05) começaremos a experimentar com co-autoria e livros transmídia. No Pé-de-Vento - veja o curço do 1o ano - experimentamos com um mash-up de curso de alfabetização, livro digital e jogos. Além disso estamos criando um algoritmo que poderá personalizar cada aula digital a estilos e necessidades de cada aluno. Abraços.

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  5. Alexandre, eu também ainda estou testando a Educopédia para poder opinar, aliás meu conhecimento sobre uso da tecnologia na educação é praticamente nulo. Me interessei pelo assunto, como disse no comentário acima, por receber muitas mensagens de pais de alunos hiperativos que relatam duas coisas interessantes: primeiro, a incompetência das escolas, sejam públicas ou particulares, para lidar com esses alunos (as públicas expulsam, as particulares "convidam" a retirar os alunos), segundo, que a maioria dessas crianças se aquieta na frente do computador. Isso deixa os pais ainda mais confusos, pois a fala geral de psicólogos e pedagogos é no sentido de limitar o uso ou até tirar o computador das crianças.

    O que me atraiu na Educopédia (sem entrar na discussão da educação digital, assunto que não domino) é justo o que falta hoje na escola dita tradicional e principalmente na pública: o elemento lúdico, a variedade de recursos e a disponibilidade de poder voltar ao mesmo assunto a qualquer hora. Você não faz ideia, por exemplo, de quantas mensagens recebemos relatando que a professora não dá aos alunos o tempo necessário para copiar da lousa, ela já apaga e muitas vezes se nega a repetir, principalmente para o aluno distraído, justo aquele que mais precisa. O método já é jurássico e ainda por cima mal empregado... Então, se a Educopédia for uma forma de "dar a matéria" mais interessante e lúdica de como ocorre hoje na sala de aula, já é um primeiro passo para a mudança do sistema educacional. Para mim, que vejo a escola como "um mal necessário" (não se choque, tá? rs) isso já está de bom tamanho, pois não tenho ilusões de que a instituição escola, de uma hora para outra, mude seu papel de perpetuação de conhecimentos arcaicos para se tornar um lugar de real respeito pelo ser humano e cidadão que o aluno É.

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    1. Giulia, a Educopédia tem nos surpreendido também nas classes hospitalares e no trabalho com alunos autistas. Se você for aqui do Rio, está convidada para conhecer e conversar com alunos e professores.

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    2. Oi, Rafael, sou de São Paulo, mas estou muito interessada em conhecer os resultados da Educopédia na prática e os comentários da comunidade escolar. Você pode me passar o endereço de alguns blogs de escolas que a utilizam? Meu e-mail é educaforum@hotmail.com. Obrigada e um abraço!

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  6. Giulia, entendo suas inquietações, mas me recuso a considerar o computador como um "calmante" do aluno. O que confundem como hiperatividade (parece até que se transmite por vírus tal o número de diagnósticos) é um efeito da sociedade contemporânea, que superestimula o sujeito desde cedo e depois o pune pelo resultado alcançado.
    A escola se baseia no modelo impresso, da leitura "contemplativa" tal como Santaella denominou. A leitura do livro é atenta, linear, calma, reflexiva. Esse tipo de leitura foi substituída em parte pela leitura imersiva, que é desconexa, veloz, sem caminho pré-definido, praticada nos ambientes da web. São modalidades de leitura, uma mais tradicional e outra emergente.
    As duas modalidades de leitura desenvolvem estratégias cognitivas específicas, que não são boas e nem ruins, mas que nos trazem competências muito distintas. O aluno super-ativo da leitura imersiva precisa também do lado mais contemplativo, pois é com a calma da leitura atenta que formulamos e relacionamos conceitos.
    Sem a reflexão e a calma, o pensamento conceitual mais avançado, como o que foi definido por Vygotsky, não se completa, não é pleno. Daí hoje termos crianças que surfam na internet, se "acalmam" diante da tela (com as mentes a mil por hora), mas não são capazes de formular um texto linear com a defesa de um argumento refletido. E sabemos que para um bom debate ou para apresentar uma proposta de projeto e trabalho esse tipo de competência é necessária.
    Dessa forma, critico a Educopédia por estar propagando algo que ainda não faz, embora não critique o modelo linear baseado no impresso que ela acaba por reproduzir em sua estrutura, que para mim traz ótimos benefícios e desenvolve a reflexão mais aprofundada, algo que o zap puro e simples na tela não permite plenamente.

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    1. Por favor, veja meu comentário acima.

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    2. Alexandre, também não vejo o computador como "calmante" do aluno, até porque muitas vezes o corpo sossega mas a mente fica surfando em jogos alucinantes. Por isso mesmo entendo que a Educopédia e outros programas podem canalizar a hiperatividade cerebral de forma saudável, independente do que se pretende com eles. Conhece por exemplo o site da Angela Lago? http://www.angela-lago.com.br/ABCD.html

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  7. Oi, Rafael, estou tentando usar a Educopédia de maneira informal, ou melhor, de forma aleatória, com uma criança com TDAH que se recusa a ir à escola por se sentir defasada em relação aos colegas, mas não consigo me cadastrar. Entrando como visitante me parece que algo não flui bem. O login é permitido somente para professores da rede carioca? Obrigada!

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    1. Oi Giulia,

      Basta entrar como visitante. Não precisa de login de professor. A Educopédia é REA dentro da filosofia Remix and Reuse. O professor pode usar partes da aula conforme o seu planejamento. Por fim, não é obrigatório para o professor. Porém não usar seria na ajuda a melhora-la mais.

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  8. Sou educopedista, produtora de aulas de ciências e penso que a grande questão é: como medir melhoria de desempenho acadêmico do alunado através do uso das TICs, da Educopédia?
    Só sabemos, em fase experimental, e já pude comprovar na prática em sala de aula com meus alunos que o uso das TICs e mais especificamente da educopédia, causa grande motivação no aluno, além de facilitar o preparo da aula dos professores em geral.
    Porém, um detalhe importante: A plataforma ainda está sendo construída, testada, readaptada... Há uma grande expectativa na rede para que dê certo. E eu estou não só na torcida mas também usando na prática!

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  9. Um Gustavo Iochpe incomoda muita gente. Precisamos de dois Gustavos para incomodar muito mais!
    Sabe a razão dele incomodar? Leiam o livro dele: O que o Brasil quer ser quando crescer.

    Resumo alguns elementos:
    1) Ele é articulista da Veja, a revista de maior circulação do pais e uma das maiores do mundo. É um veículo que atinge muitos leitores, além dos programas de TV.
    2) Ele combate "verdades" enraizadas na cultura brasileira, porém sem fundamentação como: o professor é um coitadinho; o professor ganha mal; a saída para a educação é injetar mais dinheiro; as escolas particulares no Brasil são muito boas; os sindicatos defendem o lado dos alunos e querem educação de qualidade; a tecnologia é a salvadora da educação e outros.
    3) O fato é que o Brasil tem um piores sistemas educacionais do mundo, portanto não estamos fazendo um bom trabalho nesta área. Mas, muitos querem manter assim para não mexer em vespeiros.
    4) Ele apresenta suas teses e as justifica com base em pesquisas científicas e visitas a campo (como a visita a China). Ai, dizem: mas não pode usar pesquisas de outros países. Não pode? quer dizer que nada que foi pesquisado sobre educação em outros países serve para o Brasil. Claro que não faz sentido falar isso! Logicamente, nem tudo que se pesquisa em educação lá fora serve aqui (aliás, em qualquer área é assim), mas dizer que nada se aplica é uma falácia.

    Um ponto relevante é: o Brasil não está isolado em uma redoma de vidro. Ele compete com outros países quando exporta seus produtos, ou quando necessita de gente qualificada para o mercado de trabalho/ pesquisas de ponta. E não dá para dizer: "olha, meu produto é mais caro mas compra assim mesmo porque dentro do meu pais o preço é bom, somente aqui para vocês é mais caro".

    Por último, pelos textos do Gustavo, ele não é contra o uso da tecnologia na educação. A tese dele é outra e questionadora: se tenho X reais para investir em educação, é melhor investir estes X em tecnologia ou fazer bem feito o feijão com arroz (como faz o pais número 1 em educação, a China)? E outra, não existem estudos contundentes mostrando que a tecnologia por si só melhora a educação. Ou seja, justifica o investimento?

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