18.8.13

Buscando a reflexão e o diálogo

Essa é uma mensagem para Professoras e Professores do Rio, um pedido para que não deixem de refletir e dialogar. Quero deixar minha opinião sincera aqui, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Sei que o texto é longo, mas, quem tiver paciência e quiser conversar sobre o assunto, estou sempre à disposição, virtualmente ou presencialmente. E quem quiser deixar comentários, faço um único pedido: vamos conversar com respeito e educação ;)

Primeiro, todo mundo sabe que o país PRECISA priorizar a educação pública por uma série de razões. A mais importante, na minha opinião, é que o futuro dos brasileirinhos precisa de educação de qualidade para que eles possam desenvolver todo o seu potencial e se transformar em cidadãos críticos, autônomos, solidários e competentes. Todo mundo também sabe que, para termos uma educação pública de qualidade, PRECISAMOS melhorar salários, escolas, condições de trabalho, desenvolvimento profissional, planos de carreira e precisamos reconhecer essa profissão como a mais importante de todas. 

Aqui no Rio não é diferente. Acompanho de perto o que acontece dentro da gestão e testemunho a batalha pra se fazer mais e melhor todos os dias. Nas escolas, nas CREs, no nível central, estão todos "matando um leão por dia" pra conseguir que as coisas aconteçam da melhor forma possível. Acredito, sinceramente, que a Secretária faz o máximo que pode para reconhecer, auxiliar e melhorar o que acontece na rede, para os alunos, em primeiro lugar, e para os profissionais, em segundo. Nós queremos tudo aquilo que eu descrevi ali em cima. Mas existe uma distância grande entre o que a gente quer e o que a gente consegue/pode fazer nesse contexto, como em vários outros contextos da vida. 

Todo mundo concorda que o salário inicial está longe do ideal. Ainda assim, o piso da cidade do Rio de Janeiro está entre os 3 melhores das capitais brasileiras (http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/08/1325538-fora-da-lei-11-capitais-negam-tempo-livre-a-professores.shtml). Compreendo que o Rio é uma das cidades mais caras do mundo e que precisamos pensar em alternativas. Por outro lado, a única capital que tem uma rede quase tão grande quanto a nossa é São Paulo, uma cidade também muito cara, com um orçamento maior e que tem salários mais baixos do que os do Rio. Eu não quero dizer que o salário está bom, mas que, num contexto desses, é sensato acreditar que o piso possa estar próximo ao que é viável no orçamento.

Além disso, temos um monte de leis que aparecem, mas nossos legisladores por vezes não param pra analisar a situação com o cuidado que ela requer. Temos, por exemplo, a lei do 1/3: os professores têm direito a 1/3 da jornada fora da sala de aula para atividades diversas. O Conselho Nacional de Educação acabou de concluir que sim, as redes têm de cumprir a lei, mas podem cumprir gradualmente. Por que decidiu assim? Porque a lei acarreta uma loucura de reorganização de horários, contratações de mais professores e aumento da folha de pagamento. Não há uma rede razoavelmente grande que não tenha dificuldades pra aplicar a lei em sua integralidade e rapidamente.

Além dessa lei, a rede municipal ainda precisa obedecer a outras: precisa aumentar o número de vagas em creche, universalizar a educação infantil, resolver o problema do calor nas salas de aula e levar todas as escolas a funcionarem em turno único até 2020. Eu queria que alguém me explicasse que mágica será usada para conseguir fazer isso tudo com o orçamento que temos hoje. A conta simplesmente não fecha! Precisamos lembrar que não estamos falando só na construção de creches e escolas, mas na contratação de mais profissionais para creches, escolas, cozinhas, secretarias, etc... Estamos falando também de todo o material, todos os equipamentos essenciais para o funcionamento da unidade.

Com relação à infra das escolas, é claro para todos que temos problemas bem sérios a serem resolvidos. Temos limites no SDP, que é o dinheiro que vai para as escolas fazerem pequenas manutenções. Alguns casos precisam de reforma mesmo, não apenas de manutenções. Um grande obstáculo é que a mesma estrutura é usada para reformar escolas e para construir mais creches e escolas. Então, se você decide construir mais unidades, você acaba prejudicando a rapidez com que poderia fazer reformas. Isso sem contar com a nossa dependência das empresas, que muitas vezes não cumprem os prazos estabelecidos em contratos. É o caso, por exemplo, das revisões elétricas da Light e da instalação de links da Embratel. Vemos que não estou falando de empresas pequenas.

Há uma crítica também contra a meritocracia e contra os instrumentos de gestão. As mesmas pessoas que fazem essa crítica, aplicam a meritocracia com nossos alunos. Aqueles que se dedicam mais, estudam e aprendem, passam de ano. Aqueles que não chegam ao mínimo esperado são reprovados. E quase tudo na vida é assim. Se você estuda, trabalha, se dedica, você passa em concursos, é promovido, recebe mais reconhecimento. Se uma grande reclamação dos professores é sobre a falta de reconhecimento, a crítica à meritocracia e a premiação não deixa de ser uma contradição. Por outro lado, concordo que as regras para premiação podem ser aperfeiçoadas, como tem acontecido nos últimos anos. 

Outras críticas que considero um tanto insensatas se referem à autonomia dos profissionais e os instrumentos da gestão. Para se administrar qualquer coisa, uma casa, por exemplo, precisamos ter ferramentas, procedimentos e dados. O objetivo dos dados é retratar a realidade de forma sucinta para que novas ações sejam planejadas. É claro que a análise qualitativa da realidade também é super importante, inclusive no nosso contexto, mas não há como se administrar a rede sem olhar para os números e sem ter ferramentas e procedimentos padronizados. Essas ferramentas e procedimentos (no nosso caso o currículo, as provas e os materiais de auxílio) são essenciais para que a gente consiga enxergar as escolas que estão conseguindo cumprir bem o seu papel e aquelas que precisam da nossa ajuda, que será diferente e customizada, dependendo do contexto.

Com relação à decisão da prefeitura de cortar o ponto e demitir os professores grevistas que estão em estágio probatório, ainda não houve (até onde eu sei) o pedido da prefeitura para que a greve fosse julgada legal ou ilegal e, portanto, existe realmente esse risco. O sindicato solicitou uma antecipação de tutela, ou seja, para que um juiz proibisse a prefeitura de fazer esse tipo de coisa, mas o pedido foi negado (https://docs.google.com/document/d/1nOdu-aTHDJoLHKUMO1lNxxIKpQFn_5ox4HH09UMyMmA/edit) O juiz diz que os grevistas "devem abraçar os riscos inerentes ao ato, como o corte de ponto e outras sansões, como qualquer trabalhador". Acredito que cada um deva ter o direito de escolher aderir à greve ou não e acho que a coerção, de qualquer lado, precisa parar. A greve precisa ser reconhecida por todos como um direito constitucional, mas não é certo ameaçar ou chamar colegas que resolvem não aderir de covardes.

Para finalizar, acredito que um enorme ganho nesse momento seria um bom plano de carreira para todos os funcionários da rede. Sei que ele não será nem o que quer o sindicato nem o que quer a prefeitura. Deve-se haver uma negociação e um diálogo respeitosos para que consigamos chegar ao melhor plano possível, dentro dos limites legais (lei de responsabilidade fiscal) e orçamentários. Creio que podemos chegar a um novo plano que represente ganhos importantes e reais. Apesar de ser um direito, a greve prejudica a todos: alunos, famílias, professores, funcionários e gestores e precisamos entendê-la como um mal que pode ser às vezes necessário, mas que ninguém deve abandonar a reflexão, a sensatez e o diálogo. 

-------

Tréplicas rs  ;)

Respeito a opinião de todos, mas há alguns comentários que distorcem o que escrevi. 

- Quem quer dialogar não precisa atacar o outro lado pessoalmente, o que é honesto, maduro e inteligente é expressar argumentos convincentes ao invés de buscar desqualificar e agredir;- O salário inicial do Rio, com tickets e benefícios é o melhor entre todas as CAPITAIS, esse é um fato -- em nenhum momento falei de outras cidades, mas das capitais dos estados, que têm redes maiores;- Não questionei a importância do horário do planejamento, mas argumentei que a lei precisa ser cumprida gradualmente. Basta ver as novas aulas no 1o segmento para que os PII tenham pelo menos parte do 1/3;- Não se pode comparar a realidade carioca com a finlandesa. Continuo dizendo que as provas e os materiais são essenciais nesse momento, para a gestão e para garantir a equidade;- Sobre meritocracia, continuo acreditando que os mais comprometidos precisam ser reconhecidos, inclusive financeiramente;- Provas bimestrais e provas externas são instrumentos diferentes com objetivos diferentes. Não argumento que as escolas, contextos, etc, são iguais, mas que há que se garantir equidade;- As apostilas (como as aulas digitais) são instrumentos importantes de apoio e não são de uso obrigatório;- Faço parte da gestão do Rio e compreendo que podemos errar e nos exceder em alguns momentos. 


Finalmente, continuo afirmando: escrevi o texto com o máximo de sinceridade possível e não acredito que agressões possam ajudar de alguma forma na busca por soluções.