29.1.14

Balanço da gestão


A RevistaPontoCom publicou essa semana uma entrevista comigo com um balanço desses quatro anos que estive como subsecretário na SME Rio. Acho que o texto ficou bem legal (a foto, que é beeem antiga, não rs...). Reproduzo abaixo as partes que mais gostei e agradeço o jornalista Marcus Tavares e a Revista pela oportunidade.

revistapontocom – Sua passagem pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro foi marcada, mais fortemente, pela criação do Educopédia e mais tarde pela implementação do Gente. Qual foi o significado destes projetos?

Rafael Parente – Acho que há algumas coisas relacionadas aos dois projetos que são mais importantes do que simples ações ou programas isolados. Conseguimos incentivar a inovação, o pensamento, o planejamento e a realização colaborativa, com o empoderamento dos professores e dos alunos. Buscando, assim, repensar posturas, espaços e metodologias cristalizadas há séculos. A rede mostrou que está sedenta por inovações e por poder fazer melhor e diferente, desde que tenha vez, voz e o ambiente adequado.

revistapontocom – O que deu certo e o que não deu nestes projetos? O que ficou?

Rafael Parente – Muita coisa deu certo e muita coisa precisou ser melhorada. Falo abertamente que comecei o trabalho com metas ousadas demais, como ter internet suficiente (banda realmente larga) e estável funcionando em todas as escolas e salas de aulas até o final do meu primeiro ano como subsecretário. A realidade mostrou que tudo era muito mais difícil do que eu previa inicialmente e que tinha uma visão ingênua dos possíveis desafios que encontraria no meio do caminho. A Educopédia se estabeleceu como a principal plataforma de aprendizagem no país hoje. Ela tem reconhecimento nacional e internacional. É usada em várias cidades. Nossas pesquisas internas mostram que a maioria adota, usa e quer continuar usando. O Gente, ainda que muito novo, também já tem reconhecimento nacional e internacional. Faz parte de uma lista das 80 escolas mais inovadoras do mundo. E os comentários que recebemos dos visitantes (e dos professores e alunos da escola) são incríveis. Por outro lado, poderia fazer uma lista gigante de coisas que não deram certo. Não consegui resolver o problema de estrutura suficiente para a utilização da Educopédia em toda rede. Muitas escolas (cerca de 40%) ainda não têm internet de qualidade. É preciso intensificar o desenvolvimento profissional de professores e gestores para que eles possam estar mais preparados para mudarem os seus papéis nas escolas e na rede. É preciso abandonar velhos discursos e comportamentos, criticar a realidade com responsabilidade e assumir a postura de agentes de transformação. Isso eu digo em relação a todos da comunidade escolar, incluindo os parceiros, os voluntários, os estagiários e os alunos. Com relação ao Gente, vimos que um ano era muito pouco tempo para internalizar todas as mudanças que havíamos planejado. A personalização da aprendizagem, o desenvolvimento de educação interdimensional (todas as dimensões do humano) e a aprendizagem baseada em projetos transdisciplinares aconteceram somente pela metade.

revistapontocom – O que os professores aprenderam com estes projetos?

Rafael Parente – Muitos viram que, com as novas tecnologias, podem aumentar a motivação dos alunos (e sua própria motivação). Podem romper barreiras de tempo e espaço, melhorar relacionamentos e personalizar o processo de aprendizagem, colocando o aluno no centro. Mas acho que o mais importante foi que os professores aceitaram e realizaram tarefas com excelência, sendo protagonistas de grandes transformações que não perdem para nenhuma outra rede de educação no mundo.

revistapontocom – O que os gestores aprenderam? O que você aprendeu?

Rafael Parente – Acho que os gestores das escolas também passaram a acreditar que podem e devem querer ousar mais em seus planejamentos e suas estratégias. Eu aprendi um mundo de coisas. Costumo dizer que quando comparo a minha aprendizagem no programa de PhD (em educação internacional, da NYU, que conclui em 2012) e a aprendizagem enquanto subsecretário, esse período como subsecretário me valeu como mais dois ou três PhDs. Creio que as aprendizagens mais importantes tenham a ver com a natureza humana, que é necessário estabelecer vínculos fortes e confiança antes de propor mudanças radicais de postura e pensamento. Uma segunda grande aprendizagem está relacionada com a natureza da gestão pública: as regras que regem a administração pública são ultrapassadas e alimentam a inércia, tornando as mudanças e a inovação coisas quase proibitivas. Não conseguiríamos realizar nem um terço do que fizemos não fossem as parcerias com institutos e fundações. Leva-se uma eternidade para conseguir implementar, de fato, qualquer mudança séria no setor público. Isso não pode continuar assim. Precisamos de mais modernidade e agilidade e nossos legisladores e governantes precisam estar atentos a isso. Por fim, aprendi muito em relação a mim mesmo, enquanto pessoa e profissional. Amadureci um bocado e aprendi a ouvir mais quem está na ponta antes de qualquer planejamento ou interferência. Passei a buscar mais a humildade e a admirar a habilidade de ouvir os outros.

Aqui está o texto completo: http://www.revistapontocom.org.br/entrevistas/mudancas-na-secretaria-municipal-de-educacao-do-rio