22.10.14

TEDx do Banco Mundial

No dia 09 de outubro último, a convite da querida Claudia Costin, participei do TEDx do Banco Mundial. O tema geral era a erradicação da pobreza e eu falei sobre a Educopédia e como podemos disseminar inovações educacionais em escala. Na mensagem, falava da importância dos 3 is: Inovação, Inspiração e Infraestrutura. Confiram o vídeo da apresentação e a tradução a seguir: 




O Tamanho, os Olhos e os is

Eu gostaria de começar a minha fala com um pedacinho de um poema escrito pelo Caeiro:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…

Então, o que vocês veem? O que foram ensinados a ver?

Estou aqui para contar uma história de um menino que mora num bairro humilde do Rio de Janeiro. Vamos chamá-lo de Carlos, mas esse não é o seu nome real. Carlos e seus amigos não sentiam que o que acontecia na escola era relevante. Eles gostavam de ir à praia, praticar esportes e jogar, mas não gostavam de ficar num lugar tão diferente de tudo o que curtiam fazer.

Essa história é, na verdade, bem parecida com as histórias de crianças e jovens pelo mundo por uma triste coincidência: eles não conseguem aprender em suas escolas. Consequentemente, eles não desenvolvem suas potencialidades e não têm o direito de sonhar ou de batalhar por seus sonhos. A falta de qualidade na educação não só fecha os olhos das crianças para tudo o que elas podem fazer por elas e pelo mundo, mas é também a razão principal pela qual nós temos tantos desafios enormes em outras áreas como saúde, segurança, paz e  desenvolvimento sócio-econômico. Transformar a educação pública e abrir os olhos das crianças é minha missão de vida e a razão pela qual eu saio da cama todos os dias.

Mas vamos voltar para a história do Carlos. Em 2009, nós começamos a pesquisar por que tantas alunas e alunos não estavam aprendendo. Uma das conclusões interessantes foi que não eram apenas os alunos, mas os professores também não estavam motivados. Ambos diziam que faltava clareza nos objetivos do que precisavam ensinar e aprender e que também precisavam de mais recursos. Então nós desenhamos um plano ambicioso baseado em três is. Nós queríamos causar grandes mudanças em todas as escolas, então sabíamos que precisávamos do primeiro i: INOVAÇÃO. Com nossos professores, criamos orientações curriculares claras e cadernos pedagógicos para cada série e matéria. Depois, criamos a Educopédia, uma plataforma colaborativa de aulas digitais que pode ser usada por professores e alunos de qualquer lugar e em qualquer momento. Nossos próprios professores criavam as aulas incluindo textos, vídeos, jogos, testes e planos de aula que cobriam todo o currículo. Também incluímos livros transmidiáticos e uma ferramenta para que professores e alunos pudessem criar seus próprios livros digitais, individualmente ou em grupos.

Quando Carlos começou a usar a Educopédia, foi amor à primeira vista. Mas isso não era suficiente. Nós queríamos que todos os alunos e professores quisessem usar a plataforma e se sentissem confortáveis com essa utilização. Então, precisávamos do segundo i: INSPIRAÇÃO. E eu não estou falando sobre inspirar crianças, apesar disso ser super importante. Estou falando sobre inspirar aquelas pessoas que realmente fazem a diferença. Nesse caso eram os professores. Mas em outros casos poderiam ser médicos, engenheiros, ou bombeiros. Se você quer que as pessoas transformem o mundo, você precisa inspirá-las pra valer. Então, nós criamos os embaixadores da Educopédia, um grupo de professores e alunos que já eram inovadores e que tinham de ajudar e inspirar seus colegas. Se alguém não soubesse usar a plataforma ou se houvesse qualquer tipo de resistência, por qualquer motivo, os embaixadores precisavam se esforçar para contagiar essas pessoas positivamente. Então a minha equipe selecionou e inspirou esse grupo de embaixadores para que eles pudessem inspirar os outros. O Carlos não só se tornou um aluno-embaixador, mas criou um blog para trocar experiências com outros alunos-embaixadores. Foi nesse momento que ele me convidou para visitar a sua escola e nós nos divertimos um bocado.

A essa altura nós já tínhamos ferramentas e processos inovadores e também tínhamos pessoas inspirando os colegas. Nós precisávamos do terceiro i para escalar a mudança, que era INFRAESTRUTURA. Você não pode gerar demanda e não dar às pessoas tudo o que elas precisam para mudar hábitos, culturas e modelos mentais. Isso significa não somente disponibilizar investimentos, equipamentos e instalações, mas a forma como você faz isso é crucial. É importante fazer um planejamento de trás para frente, priorizando onde se quer chegar e prestando muita atenção nos detalhes. Qualquer pequeno erro pode prejudicar todo o processo de implementação. Também é fundamental planejar todas as etapas do plano de melhorias com a participação de representantes dos usuários da nova infraestrutura – nesse caso, alunos e professores. Nós decidimos instalar netbooks, projetores e caixas de som em todas as salas de aula para que eles pudessem usar a Educopédia, mas os detalhes de como isso seria feito foram cuidadosamente pensados por um time multi-disciplinar que incluía professores, alunos, engenheiros e deseigners. Essas pessoas vêm de mundos diferentes e falam línguas diferentes, mas quando começaram a trabalhar juntos, eles começaram a compreender os outros pontos de vista e abrir os olhos das outras pessoas. Carlos, seus amigos e professores participaram no planejamento, na implementação e na utilização da nova infraestrutura tecnológica.

E isso não é tudo. Carlos se tornou um dos melhores alunos de toda a rede. Esse garoto simples ousou participar da seleção das três melhores escolas de Ensino Médio da cidade e conseguiu se classificar para as três. Hoje, ele ainda volta na sua escola antiga para ajudar professores e alunos. Além disso, com a ajuda da Educopédia em 2011, o Rio de Janeiro conseguiu os maiores avanços em aprendizagem entre todas as maiores cidades do Brasil.

Então eu concordo com Marcel Proust que “a verdadeira viagem de descobertas consiste não em buscar novas terras, mas em ter novos olhares”. Educação consiste em gerar novos olhares, inclusive em nós mesmos. Se queremos criar transformação em escala, nós precisamos dos três is: inovação, inspiração e infraestrutura. Se queremos resultados diferentes, precisamos pensar e agir de forma diferente. Se queremos que as pessoas mudem o mundo e inspirem as outras, primeiro temos de inspirá-las. E se queremos mover montanhas, precisamos da infraestrutura apropriada e precisamos usá-la bem.


Se nós usarmos os 3 is e abrirmos os nossos olhos como Carlos fez, se todos nós sonharmos e construirmos juntos, não haverá limites para a quantidade de novos olhares e melhores futuros que nós ajudaremos a criar. Chega de desperdiçarmos vidas. Obrigado.